7 de novembro de 2008

A verdade e a mentira

Na floresta do faz de contas, o Gato e a Cabra estavam discutindo: o que era mais difícil falar, a verdade ou a mentira?
E o Gato dizia: -a verdade é muito mais difícil de falar!
- Não, a mentira, respondia a Cabra.
E a discussão ia ficando séria quando chegou a Raposa e propôs aos dois brigões:
- Vamos fazer o seguinte; ao primeiro homem que aparecer, a Cabra conta uma mentira que parece verdadeira, se o homem acreditar, ela ganha. Depois para o Gato faremos o contrário, ele conta uma verdade para parecer uma mentira, se o homem não acreditar, o Gato será derrotado; agora, as explicações para a história ficar plausível podem ser fáceis ou difíceis. -Vamos ver o que acontece?

Os três se dirigiram para um lugar e ficaram esperando. Passou um pastor e a Cabra o chamou para conversar, e começou a contar uma mentira: - pastor veja a mulher que eu achei, e mostrou uma boneca sintética, muito parecida com uma pessoa. - Ela é de verdade, totalmente lavável, tem mais de 200 partes moveis e são intercambiáveis.
O pastor ficou impressionado com a semelhança, mas sem acreditar perguntou: - Se é lavável é de plástico não é?
- Não! Ela é movida a coca-cola e come salada diet, disse a Cabra. - Fala, chora e pode curar qualquer coisa.
- Não pode ser, disse o pastor. - Não acredito! - Como ela pode curar?
- Com seu beijo pode curar um joelho ferido ou um coração partido. Assim por mais que falasse mais difícil era o pastor acreditar. Até que chateado foi embora.

- Eu não falei, disse o Gato, que era fácil contar uma mentira? Mas cada vez ficou mais difícil tornar verossímil a sua história.
- Ok, disse a Raposa; - agora é sua vez, disse para o Gato.
Ficaram esperando outro humano aparecer; chegou um pescador e o Gato logo o cercou. - Seu pescador veja o que aconteceu: - passou por aqui um pastor que Deus colocou uma carga muito pesada pra ele carregar e ele em vez de reclamar, agradeceu a Deus, dizendo que elas se tornaram em algo fantástico. – Dá pra acreditar?
- É mesmo! - Tudo é possível, disse o pescador.
E quando estava saindo, a Raposa perguntou ao pescador: - Por que o senhor acreditou naquela história do Gato?
O pescador respondeu: - é verdade. – Às vezes, as coisas se parecem ruins, mas quando confiamos em Deus, elas podem tornar boas.

As duas, a Raposa e a Cabra, admiraram a força da verdade; que tem um caminho que começa difícil e no fim termina fácil.

28 de outubro de 2008

O riacho e o pântano

Foto: Pântano by Clóvis Franco

Era uma vez um riacho de águas cristalinas,
que descia do planalto
em direção ao oceano.
Quando notou na sua frente uma ravina.
Onde havia um pântano.

O riacho olhou pra o charco,
e protestou: que castigo!
Como vou passar sem um barco
neste pântano fedido?
Sem me sujar não consigo!

E o pântano ofendido respondeu:
- Depende da maneira de me encarar;
Posso diminuir seu ritmo e parar seu curso,
misturar suas águas com as minhas,
ou deixar você passar.

- Mas se você me pedir desculpa
e tiver coragem e desprendimento,
vou deixar você passar sem sofrimento.
E se tiver coragem para arriscar,
vou transformar você em nuvem,
que o vento levará para o mar.

“É preciso entrar pra valer nos projetos da vida, até que o rio se transforme em mar.” A.D.

por Joseph Dalmo (out, 2008)

17 de outubro de 2008

O São João de Estância


São João é a festa mais popular da cidade da Estância. A cidade é ornamentada com balões e bandeirolas de papel colorido, parece até uma noiva que vai casar.
Na véspera de São João sua gente acende fogueiras, e a cidade inteira, bairro por bairro, fica engalanada, toda iluminada com as lindas fogueiras que enchem o ar de fumaçeira que parece um nevoeiro que desce do céu friorento.
No sereno da madrugada, as quadrilhas de São João ao som das vozes em coro que tiram estribilho de toadas juninas, acompanhadas da sanfona, do triangulo e da zabumba, dançam sem parar, com a mesma animação do começo da noite. E o amanhã vem saudar os forrózeiros que atravessam a noite, estourando bombas, foguetes e pitus que enchem o ar com o estrondo e clarões das detonações.
Cidade de ricos folclores regionais; do samba de coco, da pisa da pólvora, das pastorinhas que dançam ao som dos batuques. Batucadas que são compostas de pastoras, com seus coloridos vestidos de chita e chapéu de palha, que marcam o som do batuque com seus tamancos. E os batuqueiros de camisa de chita e calça brim, chapéu de palha e na mão um instrumento: zabumba, pandeiro, guiso e sanfona acompanham as pastoras. Estas formam duas filas, com os batuqueiros atrás; duas pastoras trazem uma faixa como o nome da batucada (“batucada unida do B. Sta Cruz”, “batucada busca-pé...”) e fechando as filas, duas pastoras trazem um “barco de fogo” que na noite de São João corre em um fio de aço preso a dois postes. Durante a corrida do “barco de fogo” diversos grupos detonam seus fogos para testar a qualidade do fogo; qual que corre mais? qual é mais brilhante? qual o que fagulha mais?
Durante todo mês de Junho, as mulheres preparam manuês, canjicas e pamonhas e o famoso licor de jenipapo. Os homens pisam carvão, misturam pólvora e juntam limalha, cortam bambu, e fabricam “busca-pés” para soltarem na praça da catedral, onde verdadeiras batalhas se travam, que para os desavisados parece até uma guerra real, tamanha é a rivalidade com os fogueiteros em um feérico e empolgante mar de fogo faiscante, que ilumina a noite de Estância, atiram contra os adversários os “busca-pés” enlouquecidos. E haja pernas pra correr quem não quiser se queimar!!!

2 de outubro de 2008

As baianas do acarajé

Foto: Internet

As baianas do acarajé vendedoras de iguarias da culinária baiana, influência da cultura africana era a culinária dos escravos angolanos. Também trouxeram como contribuição sua religião, a música e o axé, além do delicioso acarajé, que não pode ser dissociado do candomblé. Feito de feijão fradinho, leva cebola, alho, sal e cuminho, e para ficar bem macio é batido com colher e frito no azeite de dendê.
As baianas da lagoa do Abaeté juntam ao acarajé o vatapá e a pimenta malagueta, que arde como o capeta. Outra iguaria é o abará, que é servido sem esquentar e como molhos acrescentam o camarão, caruru, e vatapá.
As baianas do acarajé com suas roupas tradicionais fazem pontos em certos locais de Ondina, Pelourinho, Piatã e Morro do Bonfim, que compõem em Salvador o cenário de todas as cores e sabores.
As quituteiras dos baianos provocaram nos poetas e cantores: Caymmi, Ari Barroso e Caetano, descreverem com inspiração em versos e canções o que tem no tabuleiro da baiana: Abará, vatapá, caruru e camarão. Mas, sobretudo, aquilo que a baiana tem no seu coração: Cangerê, candomblé e sedução.
As baianas do acarajé trazem, junto das suas tradições, o símbolo da resistência, desde os tempos da escravidão.

Por Joseph Dalmo (2008)

24 de setembro de 2008

No balanço do mar

Sea of the soul por Shana
No balanço das ondas
vem o remanso.
Vem o balanço e eu avanço.

No balanço das ondas
o mar se agita, a gaivota grita,
longe o navio apita.

No balanço do mar
quero somente navegar,
para meu amor encontrar.


Por Joseph Dalmo (agosto, 2008)

16 de setembro de 2008

O grito do velho Chico

Canoa de Tolda do Rio São Francisco
Para ouvir o grito do velho Chico, basta olhar para o atual estado do Rio São Francisco. Está assoreado, todo seco, enlameado e mal amado. É comum o encalhe das embarcações, que antes navegavam em toda sua hidrovia. Não há mais peixes, em muitos lugares, hoje mal navegam as pequenas canoas do transporte dos ribeirinhos.
Longe ficou aquele rio grandioso, que era chamado rio da integração. Longe ficou aquele rio da minha infância, que vi pela primeira vez quando nos meus dez anos percorri de Propriá a Canindé do São Francisco, numa canoa de tolda, (com sua bolina de tábua, leme, moitão e a tolda que servia de abrigo para os passageiros) numa viagem inesquecível, que demorou uma noite e um dia, e que guardo na memória. Bem cedinho a gente saiu de Propriá e navegamos até quando anoitecia e o Sol nas margens do velho Chico desaparecia alaranjado, refletido nas águas do rio as cores amarela, vermelho e dourado, que lembravam as cores das paletas dos pintores. Logo a Lua no firmamento bela e faceira aparecia. Ainda hoje não sai do meu pensamento aquela linda noite repousando na praia de uma ilha do São Francisco.
Lembro-me da viagem, navegando na canoa ao sabor do vento e na peleja dos canoeiros para navegar contra a correnteza das águas que corriam para o mar, carregando troncos, galhos, baronesas e muita emoção. Ou contemplando as belezas do rio, seus barrancos, suas inúmeras curvas, a intensa luz que aos poucos ia se abacinando no fim do dia. Durante a noite, dentro do pequeno confinado espaço, coberto pela tolda da canoa, ficávamos enclausurado na nossa consciência que tínhamos perdido a liberdade que o rio proporcionava e de suas amplas campinas de arbustos que margeavam seus bordos, onde os pássaros silenciosos se recolhiam para passarem a noite. No céu, o imenso azul escuro do firmamento, era uma concha estrelada bordada pelo Criador que numa Divina inspiração criou este maravilhoso rio.

10 de setembro de 2008

Uma casa sozinha no campo

Left_alone_by_Darkbry


É uma casa é sozinha, tão engraçada, tão estranha, feita com carinho, sem pintura, coberta com a pátina do tempo que marca sua história.
Fixada em uma clareira, ao lado de uma árvore de muitos galhos que faz companhia para a velha casa.
A casinha de telhado de telhas canal, com ervas daninhas deixando elas escuras. Tem goteiras, mas não importa, se a noite de dentro pode-se ver as estrelas.
Construída com uma portinha ao lado de uma janela. Tem uma chaminé onde sai fumaça de um fogão apagado. Caminho pelas suas paredes manchadas e passeio pelo seu telhado.
Cercada de mato crescido, onde pasta um gado fantasma, que não come e não engorda, são almas penadas.
As nuvens cinzentas no céu parecem dizer que vai chover.
Imagino águas caindo do céu amarelo, escurecido pelas nuvens. Mas, o Sol brilha através delas, teimando em levar seus raios brilhantes, como luzes em tubos a liberar o caminho para a velha casa.
O Sol e a chuva brigam sua eterna batalha, por uma varinha mágica, que marca o tempo chuvoso ou brilhante para iluminar ou encharcar a casinha. Sol e chuva misturados querem casar. Quem sabe o Sol verdadeiro esta longe de amar.
O vento sopra forte e parece que vai levar a pobre casa que oscila, como um barco no mar. Vento que leva, para dentro, o frio de agosto. Um frio que arrepia os ossos de um cão faminto que procura um canto para se aquecer.
Fico curioso para saber quem mora na casinha, tão simples, tão linda, como um castelo, que compõe o cenário dos mais singelos, esquecida a flutuar, em silêncio adormecido, em paz.

7 de setembro de 2008

Mergulho de garrafa

Abudefduf_saxatilis_by_Chayan

Eu mergulho e vou ao fundo mar, borbulhas saem da garrafa e quando respiro partem bolhas de ar e os peixes passam por mim nadando nesse aquário cheio de vegetação. Estou bem no fundo do oceano, e através da máscara vejo corais, algas, sargaços e um cardume de peixes migratórios, não tenho medo estou no reino encantado de Netuno, o deus romano dos mares. Navego entre os tentáculos das anêmonas, sobre as estrelas do mar dormindo em um leito de areia sem nada que atrapalhe, e penso no mundo encantado que me encontro, fico feliz, sem nada para explicar, esqueço tudo, só ouço o som do meu suspiro, bem prolongado, uma respiração profunda, semelhante ao suspiro do barril de onde eu retiro o meu vinho.
Fecho os olhos e sonho, um lugar tão lindo, tão tranqüilo, um vale encantado, misterioso, habitado por fadas, sereias e seres imaginários dos contos de carochinha que eu escutava quando criança. No sonho, estou em uma gruta de coral apreciando, admirado, o belo cenário, longe eu enxergo as montanhas que se erguem do leito marinho. Sinto a força da corrente de um rio oceânico. Mais adiante, esse rio se abre como um leque, abrangendo uma largura descomunal, talvez para frear sua corrente que tudo quer levar.

Traduzindo em versos...

Eu mergulho de garrafa
e vou bem ao fundo do mar.
Quando respiro saem bolhas de ar.
Estou no fundo do aquário,
e sonho com o lindo cenário.
Vejo os peixes, e corais.
Mundo habitado por sereias,
que repousam na areia,
do fundo desse santuário.

Fecho os olhos e mergulho,
num lugar tão tranqüilo, encantado,
misterioso, de um vale habitado,
por seres imaginários de meus sonhos,
dos contos dominical,
que eu escutava quando criança.
No sonho, estou em uma gruta de coral
apreciando os cardumes multicores,
que guardo na lembrança.

por Joseph Dalmo (set, 2008)

5 de setembro de 2008

Retalhos de Lembranças em versos

Praia do Castro - Rio Piauí (Foto: Clovis Franco)

Lembranças nunca esquecidas,
sempre vividas, são tantas...
Mas, uma não sai do coração,
minhas férias de verão.
De um belo rio com uma linda praia.
Deste local encantado eu queria,
as lindas recordações guardar;
daquele de rio e os banhos de mar,
dos castelos de areia que eu fazia,
das brincadeiras, das pescarias.

Na inquietude de criança,
eu andava em todos os lugares,
daquele cenário, com cheiro de mar,
mas, um eu gostava particularmente,
que era subir em um monte,
onde ficava a igrejinha do lugar.
De lá avistava o rio Piauí,
que em direção ao mar passava.
Foi um passado que eu vivi,
era as férias que eu amava.

Esta visão eu guardo na mente,
o povoado, o rio, o verde.
Verde do manguezal,
verde do coqueiral...
As margens do rio, pedras e areia,
da praça, o areal, a aldeia
que ao longe parecia um presépio.
Da igrejinha abençoando o rio,
do sol brilhando como um farol,
a mergulhar no rio durante o pôr-do-sol.

A memória reavivada descansa.
Adeus! Adeus! Velhas lembranças.
Jamais me esqueço daqueles dias.
Hoje, revivo com alegria,
daquelas belas recordações,
para sempre vividas no meu coração.
Queria minha infância novamente.
Impossível! Não, ela esta na mente.
O tempo que passou não tem meio, começo, ou fim.
Mas, no pensamento eu enganei o tempo, enfim.


Por Joseph Dalmo (agosto, 2008)

22 de agosto de 2008

Lembranças da Infância

Rio Piauí, praia do Castro – foto Clovis Franco

Lembranças nunca esquecidas, sempre vividas, são tantas...
Mas uma não sai do coração, minhas férias de verão em uma linda praia de um belo rio. Deste local encantado eu guardo lindas recordações; banho de rio, castelos de areia, jogos de bola, pescarias, brincadeiras com os meninos e meninas. Tantas lembranças, dos pescadores, com suas imensas redes de pesca, das canoas de velas latinas coloridas, que traziam peixes para vender na margem do rio. Na inquietude de criança eu andava em todos os lugares daquele cenário, mas um eu gostava particularmente, que era subir um monte, onde ficava a igrejinha do lugar, de lá avistava o rio Piauí de cor de cristal azul, majestoso desfilando em direção ao mar. Esta visão ficava no lado do nascente, e nos outros quadrantes havia o coqueiral. Era um mar verde pontilhado de coqueiros, porém antes da praia do rio, se estendia o povoado, com suas casas, ruas e praça. Esta praça era especial, de frente para o rio, delineada por casas conjugadas, de uma porta e três janelas todas iguais. A praça era cercada dos quatros lados por lindos tamarineiros de grossos troncos e copas enormes, que faziam uma grande sombra, onde minha família ficava nos fins de tardes para curtir a fresca em longos bate-papos e nós crianças brincávamos na esteira ouvindo as conversas dos mais velhos.
No centro da praça existia um imenso areal, que a noite sob um céu estrelado, a gente brincava a luz do luar, de guerra de mentirinha, cujo objetivo era de cada grupo, levar a sua bandeira para o lado do “inimigo”.
Que lugar encantado, mágico, tinha tudo para fazer, um dia era uma pescaria no cais do trapiche, depois banho nas águas quentes do rio. Outro dia, saíamos para explorar o lugar, sempre havia um lugar para visitar. Começávamos pelas margens do rio, até onde terminava em um braço de rio, onde havia um manguezal, passávamos horas pescando crustáceos, (caranguejo, e siris). Era muita coisa para fazer naqueles dias, onde milagres aconteciam, era uma ilha da fantasia.
Colado no quintal da casa que ficávamos tinha um sitio de frutas, com: mangueiras, cajueiros, laranjeiras, mangabeiras e goiabeiras, que fazia a alegria da criançada. A gente fazia um buraco na cerca e penetrava no sitio para roubar frutas. Mas eu gostava mesmo era das mangas-rosas, saborosas, cheirosas que apanhávamos caídas, ou atirávamos pedras para derrubá-las, mas com medo de sermos pegos pelo dono do sitio.
Que pena de não me lembrar de tudo que passei, mas crianças não ligam para lembranças, não têm diários, suas lembranças se armazenam na biblioteca da mente, se lembram perfeitamente da primeira cobra que vêem, ou da abelha que lhe ferrou, do choro, da dor, mas logo estava disposta a nova arte, nova descoberta, nova aventura. Nas brincadeiras são sempre fortes, nas quedas e na dor.
Queria minha infância novamente, impossível, não, ela esta na mente, que bom, enganei o tempo.

13 de agosto de 2008

Lábios

Lips_by_tsiken

Lábios de mel.
Lábios pecadores.
Lábios de mulheres.
Que coram de vermelho,
em frente do espelho.

Lábios carnudos.
Lábios lúdicos.
Na volúpia do desejo,
esses lábios imploram,
do amante um beijo.

Lábios para arrastar.
Para os gritos conter,
os gemidos solitários.
Lábios para sugar
o mel, dos herbários.

Lábios para articular,
palavras ausentes.
Na boca reluzente,
lábios mostram os dentes,
como perolas de um colar.


Por Joseph Dalmo (agosto, 2008)

6 de agosto de 2008

Novos Horizontes

You...you were acting like it was

The end of the world

U2 (Until The End of The World)



Amigos que me lêem, tenho novidades.



Após longas meditações, jejuns, auto-flagelação com correntes de aço, percorrer o caminho de Santiago de Compostela três vezes (uma caminhando, outra pulando de um pé só e outra plantando bananeira, equilibrando um jogo de copos de cristal com os pés e com os olhos vendados), resolvi que era hora de abrir um novo blog. Mas, calma! Não é o fim da minha participação neste blog aqui. Na verdade, o novo blog não é de autoria apenas minha, é um novo consórcio com um grupo de amigos de longa data. Sendo assim, continuo presente aqui no guardanapo azul, sobretudo com minhas poesias. Lá no outro pretendo postar mais crônicas e vídeos e outras coisas que acho que serão mais a linha dele. Então é isso. Caso queiram conhecer o novo espaço, clique na figura abaixo.



4 de agosto de 2008

Arquitetura Inquietante


Ominouse_Religion_by_jaded Realism

O relógio marca um quarto para nove e uma misturas de elementos de diversos estilos, um, dois e três. No frontão grego, nas janelas românicas e nas torres góticas. Ecletismo estilizado que usa elementos do passado, do presente no mesmo edifício.
Torres apontando para o alto reforçando a percepção da altura da Catedral, com suas pontudas torres apontando para o céu. São dois gigantes riscando o céu, que estremecem quando apontam para o infinito.
Arquitetura impressionante, impressão inquietante, ricamente ornamentada. Imaginação libertada da realidade.
No centro, uma janela redonda, a rosácea, um elemento muito característico do gótico estilo, forma um vitral multicolorido. Vitral que atrai muito a atenção. Seus azuis intensos e vermelhos brilhantes projetam uma luz violácea sobre as pedras da construção.
Por outro lado, as suas janelas estreitas contrapõem com a verticalidade da construção.
Coroando sobre o frontão que liga as simétricas torres, tem a cruz de Jesus pra lembrar aos cristãos a fortaleza de Deus.

3 de agosto de 2008

Filminho na Sessão da Tarde

(foto por Disturbed Thoughts - DeviantArt)



É do reflexo que alimento minhas dúvidas

Finjo ser adulto, há muito larguei a infância

Atuo no melhor estilo canastrão

É filme pastelão sonhando ser noir

Roteiro que parece reprise em horário nobre

Mas é produção trash para platéia livre

Inofensivo à carola freira que enrubesce diante do padre

São novidades conhecidas desde o jornal de ontem

Relembro com orgulho minhas melhores interpretações

Convenci minha mãe de que sabia o que queria

Tudo bem, mãe não conta

Elas se interessam por aquelas mentiras sinceras do Cazuza

Sigo na crença de que ninguém nota

Que não há quem recrimine minha teatralidade tosca

Mas é aquela velha história do homem que pensa ser invisível

Ou do rei que está nu

Por onde anda a criança que me revelará a verdade?

Sufocada no cotidiano estéril de dias iguais?

No mais, a direção é fraca e o rumo incerto

Dizem que há um norte

Eu digo que há acomodação de segunda classe

Sem direito a serviço de quarto

Digo que há assento vago na primeira fila

Assim como na última também

Digo que não há platéia que realmente goste

De filme que passa na Sessão da Tarde

30 de julho de 2008

Estagnada?

A Alice falando de estagnação. Respondi isso...

(foto por Ash-Kylie - DeviantArt)

Estagnada?
Nada
Não quem escreve
Não quem ouse pensar
Não a escritora de horas completas
De verbos de ação
E do caldeirão saem letras
Frases, citações e nomes antigos
Transformação irradiada
Revoluções por minuto
Cogumelo atômico em minha Hiroshima
E para ler sua "estagnação"
Só sendo lebre que não perde para tartaruga.

17 de julho de 2008

Ainda na Terra da Fantasia

(Foto por C. Lanez - DeviantArt)



O bem vence o mal e espanta o temporal, assim já preconizava o grande filósofo Gorpo. Após uma breve negociação, o Príncipe Encantado, que sou eu, conseguiu convencer a Bruxa Má do Oeste, que é a ex-esposa (e aqui cabe um parêntesis, ela não é exatamente uma bruxa, mas como é certo que a história é contada pelos vencedores, então, a estes, cabem as batatas da liberdade poética), a deixar Rapunzel e Cachinhos Dourados sob sua guarda por mais alguns dias ensolarados. E é engraçado notar que, apesar das chuvas torrenciais que vem assolando a capital onde o sol nasce primeiro, os dias possuem um colorido todo especial pelo simples fato de ser acordado com dois beijos de bom dia e ir dormir com dois beijos de boa noite. Pó de pir-lim-pim-pim lançado por Sininho para transformar os nossos dias.


Crianças possuem a rara capacidade de nos fazer crianças também. Parece encanto do Mágico de Oz. De repente o traficante transforma-se em um mago manipulador de poções alucinógenas, o assassino é um demônio devorador de almas, o assaltante é um ogro desalmado, o pedófilo é o Lobo Mau secretamente desejando Chapeuzinho Vermelho, bairro de periferia dominado por bandidos transforma-se em um reino triste onde as forças do mal subjugaram as forças do bem, o colarinho branco desviando verbas é um rei muito, muito, muito mau, que rouba o dinheiro dos pobres. E, quando o Príncipe Encantado (que sou eu, lembram-se?), chega ao castelo depois de um dia inteiro de combate contra tamanha legião de seres maléficos, eis que as fadas do bem renovam suas energias com seus poderosos encantos, como, por exemplo, abrir um sorriso ao vê-lo atravessar a ponte levadiça. Há encanto mais poderoso do que demonstrar o amor que se sente?


Então é isso. As fadas continuam em meu castelo transformando meus dias e mudando minha rotina. Significa menos texto postado, mas certamente não menos inspiração, como já se deve ter percebido. Significa momentos que não serão esquecidos. Momentos de revelação, conversas que já se tornam maduras em uma e dentes que ainda caem da outra (Ops! Acho melhor deixá-los embaixo do travesseiro para a Fada dos Dentes trocar por uma moeda!).


Aos amigos blogueiros, paciência. Tenho estado muito pouco diante do computador. Sendo assim, voltarei a ler vocês em breve. Por enquanto, entendam. Tudo é por elas e para elas, preciso usar esse tempo para renovar minha fé em um mundo melhor. Overdose de pó de pir-lim-pim-pim novamente só nas férias de fim de ano...

16 de julho de 2008

A LUZ ATRAVÉS DA JANELA



Minutes to midnight by =Princess-of-Shadows


A luz entra pela janela
entreaberta
entrefechada
não sei ao certo.
O brilho da lua entra
sem
cerimônia
sem
vergonha.

No céu as nuvens
cinzentas passam
e olham...
para as estrelas
com
inveja
do brilho delas.

Através da janela
O gato
sob o luar
contempla
sombrio
o murmúrio
do mar.

Através da janela.
A moça
melancólica
sonha
com a beleza
do céu azul
do escuro mar.
Que desperta
nela
um desejo
uma vontade
de amar.

10 de julho de 2008

A Jovem e a Rosa

Beleza - deviantArt

Que bela imagem
da rosa e a jovem.
Tanta poesia invoca
a linda miragem
de um corpo sensual,
tomando pela mão, uma rosa
em um dialogo floral.
Pega a rosa e sente
o seu perfume angelical.
Murmura segredos
e misteriosa sonha.

A jovem
em preto e branco
na contraluz,
reflete como espelho
a transparência da luz.
Em contraste,
a flor perfumada,
no seu verde e vermelho,
compõem com a jovem,
o cenário
da moldura da janela fechada.

9 de julho de 2008

Terra da Fantasia ou Carta do Desaparecido

(Gravura por Cris Vector - DeviantArt)

Não
Não foragido
Não desaparecido
Não abduzido
Não transformado em poema
Não esquecido dos amigos
Não

Agora, explicações:

É simples, são as férias dos meus bebês. Ambas estão aqui em casa. Ambas já acessam internet e possuem primazia. Ambas querem muito de mim, tirar o atraso do tempo em que ficamos distantes. Bricadeiras, vídeos da Xuxa (e querem, inclusive, que eu dance junto...), pular corda, contar estórias de terror debaixo do lençol feito de cabana, jogar palavras cruzadas, dominó e baralho. Querem que eu seja padrinho mágico, que eu tenha uma Máquina do Mistério, que eu seja Scooby ou Fred ou Salsicha (uma é a Welma, a outra é a Daphne), querem ser Barbie, querem ser Mandy e querem que eu seja o Puro-Osso. Sendo assim, quando não estou no trabalho, estou no lazer junto com elas.

Já sinto falta de escrever e prometo que semana que vem a produção volta ao normal, pois, infelizmente, elas voltam para a casa da mãe...

A vida é assim, ganha-se aqui, perde-se acolá. Aproveitemos o que ela tem de melhor todos os dias. Hoje é dia delas. Agora vou correndo para lá, a terra da fantasia, pois já me chamaram duas vezes, e contando...

Ps.: Crazy Diamond, thanks! Pela saudade e pela canção!

8 de julho de 2008

Felicidade em doses Homeopáticas

- Não, não sei. Já disse que não sei.
- Quando você vai saber?
- Talvez nunca.
- Mas se não for agora, pode não ser mais.
- Sinto.
- Sente o quê?
- Um lamento.
- Mas você quer viver assim?
- Não. Assim vai ser só dor com pinceladas de prazer ou vice-versa.
- E de outro jeito é só frustração.
- Não há como manter esses sentires todos intensos e desordenados.
- E então? A gente se larga e se dói? Ou a gente fica perto e vive de felicidade em doses homeopáticas?
- Não, não sei. Já disse que não sei.

E. Alvarez

7 de julho de 2008

O POVO E A ELEIÇÃO

Toda eleição é um “chover no molhado” e o povo quebrado esperando ela chegar. Os políticos sabidos sem decoro parlamentar imploram o voto do povo com promessas de enganar, depois enrolam e esquecem que prometeram trabalhar com honestidade em favor do povo. Depois de empossados nada de trabalho quanto mais legislar.
No Brasil tem hora de Brasília, hora oficial, devia ter também horas de trabalhos, que seriam três dias por semana como fazem os bacanas dos deputados e senadores que chegam à noite de segunda e voltam para casa nas quintas feiras a tarde. Isto que é trabalhar! É de lascar. Este é um país sério, honesto e trabalhador, pobre do povo!
O executivo dá só bons exemplos, está aí o tal cartão corporativo que não me deixa mentir. Mas tudo no interesse do povo, até permite que os deputados façam projetos, quando não tem decreto lei para aprovar.
Esse ano até que trabalharam demais, passaram a tal “Lei Seca”, Será que importaram da América? Lá da década de trinta? Talvez tenha aparecido por aqui o “Al Capone”, quem sabe? Esta tal de Lei Seca ainda vai dar o que falar; “Tege preso!” O Senhor bebeu, comeu, bebeu, a lei prendeu e se não quiser fazer o teste do bafômetro, não tem importância o “Puliça” lhe prende assim mesmo. Muito simples é somente dizer que você é um cachaceiro, um bagunceiro e o brasileiro vai para xilindró porque o delegado, ou o soldado tem fé de oficio, falou e disse, bonito né! e você Mané não tem colher, vai preso mesmo!
Voltando para eleição, que é obrigação, devia ter também o voto de protesto, de fato, a gente vota sob protesto e sem opção de dizer não, já que a urna não tem a tecla para digitar: não voto em ladrão. Aí sim, seria uma verdadeira democracia onde a gente se expressaria e diria o que queria em uma eleição honesta, sem mentiras e demagogias.
E quando os senhores Senadores se reúnem em sessão para tomar uma decisão que nem sempre é a favor do povo. É só embolação, falta de coro, recesso, protestos e pedem vista do processo. Adiando as resoluções para cada vez mais consumirem o dinheiro da nação com salários, moradias, mordomias e “jetons”.
Fico perguntando para meus botões: “que pais é este que precisa de políticos corruptos, calculistas, cínicos que roubam os recursos da nação”. “Por que será que a política só atrae pessoas tão pequenas, de mentalidade anã?”
Nunca serei um ‘policitante”, prefiro tomar calmante, lexotan, placebos - comprimidos de mentira, ou água com açúcar que me lembra meu tempo de criança que a tomava para acalmar depois de um susto. Hoje tomo calmantes para limpar meus ouvidos e minha mente saturados de besteiras que chegam pelo radio, jornal e televisão. É o mal da eleição; comícios, passeatas, trios elétricos que varam a noite até de manhã. (In)felizmente só temos de dois em dois anos, e termina em novembro e a história encerra nesta porcaria de terra, esta farsa chamada eleição.


Traduzindo em versos

De dois em dois anos
É chover no molhado
O povo quebrado
Esperando a eleição chegar.
Os políticos sabidos
Sem decoro parlamentar
Imploram o voto do povo
Com promessa de enganar.

Antes da eleição
São de uma honestidade sem par
Mas depois de empossados
Botam pra quebrar.
Este é um país sério
Honesto e trabalhador
Mas os políticos desonestos
São um horror.

Este ano, imagine, seu Doutor
Os deputados fizeram a tal Lei Seca
Que quem bebe e dirige dançou.
Será que importaram
Da América? Tenha dó
Bebeu, dirigiu, cana,
E não tem bacana
Vai para xilindró

De dia tem as passeatas
De noite tem comícios
Em novembro a votação
É coisa de obrigação.
Não tem jeito, tem que votar
Sob protesto e sem opção
Na tal urna não tem a tecla
“não voto em ladrão”.

Por Joseph Dalmo

4 de julho de 2008

A JANELA

Moro pertinho do mar. Amo o mar, é tão tranquilizante o mar e de minha janela eu olhava para ele, há muito tempo atrás. Hoje não olho mais, só vejo a selva de concreto e castelos de pedras que se chamam casas.
Mas, antes da minha janela via o Sol nascer no horizonte a encher de cores o céu, matizando suas nuvens às vezes claras outras vezes escuras. Era um espetáculo mui belo. De vez em quando se armava um tremento temporal, com raios que cortavam o ar para o mar. Aí ficava tudo um breu, credo! Fazia medo. Desabava do céu um tremento aguaceiro. Depois da tempestade vem sempre a bonança, puxa esta tirada já é velha, mas vamos em frente assim mesmo. Então, o Sol dava o ar da graça novamente, porque aqui no nordeste tem isso da chuva ser ligeira, não tem preguiça de ficar “chovendo no molhado”, dias e dias. E junto ao Sol vinha também o vento sudeste outras vezes nordeste, não sei, so sei que ele vinha e ficava balançando as folhas dos coqueiros do meu quintal ou os coqueiros que molduravam a praia com seu verde amarelado das suas palhas que serviam de galhos para as aves posarem.
Ao entardecer via também da outra janela o Sol se pondo no horizonte distante, sim, porque uma janela fica defronte do mar e a outra dá para a rua que passa por trás, naquele vai e vem incessante de carros. Aí o espetáculo era outro, tinha que ser rápido, pois o cenário mudava de cor todo minuto e cada um mais lindo.
Neste tempo tinha ainda dunas e verdes no horizonte, hoje não tem mais, passaram o trator e tudo acabou só ficou o concreto, mas isso é outra história.
À noitinha surgiam também as estrelas e dependendo do dia a esposa do Sol também dava o ar da graça com sua luz prateada a clarear o mar. Nestas noites estreladas eu via o Cruzeiro do Sul brilhando e cintilando sobre o mar, como a chamar os pescadores para pescar naquel mar azul escuro. Eu ficava com água na boca com vontade de passear pela praia, ou pescar com minha rede feiticeira que parecia a cabeleira de uma bruxa que tomava banho no mar. Era tão gostoso pescar numa noite de luar, com as fadas que me acompanhavam e me faziam flutuar como eu fosse parte do mar.
Cada lance da rede eu ficava com uma alegria louca quando encontrava um peixinho que vinha coberto de restos de folhas e algas mortas, mas não me importava com o resultado da pescaria, o que importava era a felicidade que tudo isso trazia.

Traduzindo em versos...

DA MINHA JANELA

Vejo o Sol se pondo, fascinado...
O céu em tom de vermelho matizado;
Ao fundo as nuvens escuras à clarear,
diluindo-se no ar os nimbos aguaceiros...
Contrapondo a este cenário, observo coqueiros,
balançando suavemente suas folhas no ar...

Como que para dar boas vindas aos andorinhões,
que circulam em bando de enorme proporções...
Ao entardecer, da minha janela aprecio afinal,
o Sol desaparecer por cima do manguezal.
A escuridão cai depressa em consequência....
e a Lua surge, e as estrelas em sequência...

Olho para céu e percebo o Cruzeiro do Sul
brilhando sobre o mar azul.
Fico olhando o mar pela janela
e vejo saírem para pescar os barcos a vela...
E a Lua brilhando com sua luz prateada o mar...
e fico imaginando como é gostoso nadar.

Saio para uma pescaria com o luar a inspirar...
A gente fica leve,... flutua,... e brinca como um louco.
O resultado da pescaria é pouco, não satisfaz...
O que importa é a felicidade
que tudo isso traz.

By Joseph (Aracaju, abril, 2001)

2 de julho de 2008

Sobre Café e Cigarros

"Dêem-me café, e ninguém se machucará"
(Foto por Sadiya - DeviantArt)

Letícia, escritora e minha amiga pessoal, já alertou-me que é de bom alvitre que o autor não escreva de maneira tão pessoal que se reflita por inteiro em seus textos, como se em um espelho estivesse. Sorry, Crazy Diamond! Aqui vamos nós de novo...


Zélia, escritora, amiga pessoal e oráculo eventual, disse-me, certa vez, que não é interessante ficar contando períodos de tempo, que o melhor é viver os dias e deixar que o que se quer esquecer se esvaneça naturalmente. Desculpe, capitã! Aqui vamos nós de novo...


Valcir, escritor, irmão, oráculo permanente e companheiro de cachaças homéricas, disse-me, como bom troglomacho que é, que eu tenho uma vontade de ferro, haja vista haver me livrado de dois vícios ao mesmo tempo, a saber, o cigarro e o café. Bom, quanto ao café, aqui vamos nós de novo...


Ana Fernandes, escritora (não vou dizer irmã, por que aí seria incesto!), paixão primal, amante e companheira de todos os momentos, a todo tempo diz que me ama e que, depois que parei de fumar, meu odor melhorou substancialmente, e que, depois que parei de tomar café, meus estresses praticamente sumiram. Perdona, mi amor! Calma, quanto ao cigarro, fique fria, mas já quanto ao café...


O caso é o seguinte. Quem me conhece sabe que fumei por cerca de dez anos, que já havia tentado parar com o cigarro um sem número de vezes, e que no dia 13/01/2008 eu fumei o último deles até o presente momento. O que nos dá hoje, neste momento, exatamente 171 dias, 18 horas e 45 minutos sem colocar um cigarro na boca. No rastro da vontade de parar de fumar eu também cortei o café. Quem fuma sabe, um nasceu para o outro, assim como a coca-cola nasceu para o rum, ou a cerveja para a praia, ou o whisky para os dias frios, ou o vinho para noites de amor... ok, eu bebo sim, e vou vivendo!


Apesar de haver cortado o hábito de fumar, não me tornei um ex-fumante Xiita, até por que ainda sinto uma vontade danada de pegar uma carteira de Marlboro, colocar todos os cigarros na boca e acendê-los de uma só vez. Juro que um dia eu ainda faço isso. E digo mais, quem fuma e for mais macho do que eu (e isso também vale para as moças que forem mais mulher do que eu!) que continue fumando feito uma caipora. Ninguém é inocente nesse quesito, todos sabem dos riscos e cabe a cada um decidir se deve fumar ou não. Por mim, tudo bem, e se for amigo meu pode ficar certo de que, ainda que esteja internado em estado terminal com câncer na garganta, e quiser fumar, eu levo o cigarro, acendo e atiro em qualquer médico que queira impedir esse ato de prazer inenarrável.


E com relação ao café? A verdade é que já tomei tanto café em minha vida quanto há água correndo no rio Amazonas. Tudo bem, o Amazonas é exagero, mas que chega a ser como o Solimões, ou o Negro, isso chega sim. Mas quem pode me culpar disso? Grãos selecionados, cultivados em solos bem tratados, torrados no ponto adequado, tirados por baristas hábeis e servidos em xícaras de porcelana pré-aquecidas. Aquela fumaça, que descreve rotas exóticas em direção ao meu nariz (hoje liberto da nicotina, o que me dá um olfato ainda mais apurado), e que adentra meu corpo e seqüestra o meu desejo, quase num ato de volúpia. Capuccino, Expresso, Late, Russo, com leite, variantes diferentes do mesmo prazer. Some-se a isso o reconfortante hábito de sentar à mesa do coffe shop com os amigos e conversar sobre tudo e sobre nada. Lembra-se, Ana, que foi assim que tudo começou?


E, antes que me reputem “portador de necessidades especiais relativas à cafeína” (expressão politicamente correta para “viciado em café”), quero deixar claro que, apesar de todo o prazer redescoberto ontem, não estou tomando cafés como outrora. Hoje minha degustação resume-se a uma xícara, apenas uma xícara diária, mas que, transformado em um momento único e especial, vale como se fosse a última.

27 de junho de 2008

Luto é Recado Na Geladeira

( Foto por Mash11 - DeviantArt)


Era quarto de paredes escuras
Cortina vermelha pendurada na janela fechada
Boneca de pano com sorriso malévolo
Abajur de cores não descritas no dicionário
Teia de aranha junto do mofo no teto
Cheiro de velhice e juntas que estalam
Era um quarto
Era mais da metade
Era tanto quanto inteiro fosse
Mas tinha lápis
Tinha papel
Tinha esperança colorida em cordel
Escreveu em nanquim
Postulados de além vida
Desejos para antes do fim
Relógio quebrado apontando horas passadas
Tempo sempre igual
Temporal anunciado que chegou sem avisar
E na geladeira tem o recado de quem foi pensando em voltar
Mas o menino perdido na rua achou por bem fazer mal
Quem foi, ficou na calçada
Quem ficou, guarda lembrança que não vai
No quarto, tintas evanescem
Saudade é dor que não tem cor

17 de junho de 2008

Desatino de Solitário


(foto por Skize - DeviantArt)


Hoje eu procurei o seu corpo em minha estante. Ele não estava lá. Desconcentro e tomo remédios para dormir. Faço coça de mim mesmo, estereótipo de autor noir ambientando conto de terror em favela carioca. Fui ao quarto, fui à sala, olhei pela janela, mirei céu, cavei terra. Ele não estava lá. Troco o remédio por doses cavalares de álcool e sinto-me bailarino ao ver a minha casa rodopiar. Passo mal e conto segredos para o vaso sanitário. Talvez não fossem tão segredos assim, os vizinhos ouvem tudo e comentam baixinho o quanto o pobre coitado sofre por amor. E amor não é boa medida de vida saudável, ou talvez seja, ou talvez não seja, ou talvez seja. E desse jeito, puxando e encolhendo feito acordeom desafinado, vou cantando a minha história em versos e trovas e cordas e acordes que fazem a alegria alheia. A minha? Tem dia que sim, tem dia que não. É verdade. Já não sei de mais nada, confusão é meu sobrenome, meu nome é indecisão, o apelido é talvez, mas pode me chamar de Zé. Ninguém. Procurei, não achei, e deu aquela vontade de chorar em silêncio. Queria ao menos saber gritar de dor. Mas não fui educado assim. Obrigado mamãe, obrigado papai. Alguém sabe dizer de onde vem o maldito canto da sereia? Pago recompensa gorda para quem conseguir matar essa bruxa. Pago recompensa em dobro para quem me ensinar a não dar-lhe atenção. Lanço pragas ao vento, boa parte delas retorna e estapeia minha face. Lamúria de menino grande que perde a noção do que é certo e errado, que chora no canto da parede sozinho, que faz bico tão grande quanto sapato de palhaço. Menino exagerado que vê o que não existe.

Traduzindo em verso.

Hoje procurei o seu corpo
Mas não o encontrei
Sinto falta
E é daquelas que remove a razão
Quero mais de você
Sei que a distância não é para sempre
Sei que amanhã vou sentir o aconchego
Mas, na ausência, eu perco a noção
Invento mil histórias sem sentido
Imagino monstro sumério em tragédia grega
Ode romana em dia de incêndio
Exagero essa solidão fugaz
Que parece mil noites de história triste
Faço votos, pago prendas, rezo terço
Peço, simplesmente
Volta
Dá-me mais um pouco
Faz esse dia ser único entre tantos dias iguais
Embala meus sonhos de homem maduro
Seja a música do meu verso
Seja beijo, abraço, cheiro
Deixe que eu
Seja em você

15 de junho de 2008

É Tudo Mistério

(foto por Salihguler - DeviantArt)


É tudo certo mistério
Ou mistério certo do viver confuso
É tudo desejo de ser sereia que canta
Mas vive de ouvir canto de sereia alheia
E quando diz não, quer o sim
Quando diz querer, não está nem aí
Se diz saber, não faz idéia
Se faz idéia, pensa haver descoberto a verdade
Hoje reputa o sexo como sujo
Amanhã suja o sexo sem pudor
Bom é praia em dia de chuva
Chuva só combina com cama quente
Li minha mão, tu fazes parte do meu destino!
Sinto muito, estava míope, tu já és passado...
Tu me amas? Por que não dizes o tempo todo?
Larga do meu pé! És tão pegajoso!
Estou acima do peso? Podes ser honesto...
Como assim, gorda? Por que não mentiu?
Mas há o que não mude com os hormônios
Hoje é verborragia, amanhã também

O observador perplexo deste mundo particular
Perde-se em devaneios intestinos
Ora julgando ser capaz de decifrar o código
Ora negando a realidade inconteste
Na maior parte do tempo
Nem elas mesmas se entendem
Então o que é que você faz
Tentando entendê-las?
Não há de se perder tempo
Melhor curtir a companhia (quando a progesterona deixa)
E, quando começar a ficar confuso
Correr longe
Jogar futebol
Uma rodada de pôquer
Duas cervejas
E voltar, renovado, para os braços dela

8 de junho de 2008

Anjo, Assim Diz Ela

(Foto por Skaterboy - DeviantArt)


“Anjo...
amigo...
amor...
poeta...
e inspiração!”

A Ana Fernandes me mandou esses versos, pediu para completar. Completei. Espero que gostes, Mafalda.

Anjo
E se você diz assim
Então assim é
Outono se foi
Inverno deixado para trás
Primavera começa com flores
Verão vem
E, enquanto não chega
Criemos os nossos próprios dias de calor
Só um pouquinho... diz com languidez
Sussurra segredos
Escancara sorriso
Toma pela mão
Guia para si
Faz arte com o corpo
Enlaça e abraça forte
Pendura cartas de amor no varal
Faz poesia às escondidas como criança traquina
É festa com balões multicoloridos
É lua cheia que astronauta admira
Mar de águas claras em dia de sol
Linha reta em estrada torta
E ponto final em conto de amor

Anjo
Se você diz assim
Assim é
As asas são suas
Voemos alto sem medo de cair
Vamos perto do sol
Vamos longe no céu
Vamos fugir
Pousar em ilha desejada
Ver golfinho dançar para você
Mergulhar e fazer colar de corais
Sermos juntos
Ser eu, ser você, sermos nós

4 de junho de 2008

Portas

(Foto por Zechic - DeviantArt)


Portas...
Muitas portas
Muitas entradas
Poucas saídas
Porta que leva
Porta que trás
Vassoura atrás da porta
Teia de aranha também
Porta larga
Porta estreita
Porta da percepção
Salve Jim
Porta do Hades
Cérbero bonzinho, Cérbero bonzinho
Porta do Céu
Pedro e o molho de chaves
Porta-lápis
Porta-moedas
Portaria
Porta tudo quanto quiser
E assim leva-se a vida
Atravessando-se portas
Fechando-as atrás de si
Coragem? Ousadia? Loucura?
Deixando-as abertas
Temor? Segurança? Loucura?
Portas...
Importa vivê-las
Portanto, por tudo, por nada
Seja esperta
Encontre a chave mestra


Passeando pelo blog Esse Papo Também, vi um post que me inspirou a descrever estas portas. Thanks for the inspiration Camilla. Esse é para você.

3 de junho de 2008

No Espelho do Guarda-Roupa

(Foto por Helewidis - DeviantArt)


Cantor de bossa-nova desajeitado
Dedo longo, prosa pequena
Talento escondido no baú
Tradução de emoções para si mesmo
E veio o dia, que de belo só o nome tinha
O mundo bateu-lhe à porta e na face
E vieram as lágrimas
A despeito do sorriso bobo no rosto
Passou a aurora
Chegou o sol a pino
Adentrou a noite e
No último suspiro, dormiu
O sonho carregou o que de resto sobrava
E teve vento, teve chuva, teve de tudo um pouco
Fazia frio nos trópicos, nevou dentro do quarto
Cortejou ciclone, tempestade e precipício
Ouviu o convite da morte e disse não
Fez trança no cabelo
Tatuou dragão no braço
Acendeu cigarro perfumado
Lançou injúria no vazio
Rabiscou encantos na porta do banheiro
Saltou de braços abertos para a vida
Lasciva, ela lhe beijou o rosto
Fez promessa e lhe entregou o corpo
Descobriu seus segredos
Sentiu cheiro e sabor de sexo casual
Explodiu em nuvens carregadas
Caiu em gotas bem vindas
Cantarolou canções preferidas
E soube, por fim
Não havia respostas
Por que não havia perguntas
Estas eram desnecessárias
Por que tudo estava lá
Abriu os olhos e viu
Tomou o violão
E fez poesia

26 de maio de 2008

Escrevendo o Silêncio

(foto por Blue Rose - DeviantArt)


Escrevo não apenas por que gosto, mas, antes de tudo, por que preciso. Aprecio a palavra desde cedo, tanto a escrita quanto a falada, mas devo admitir que prefiro aquela a esta. Já me rogaram pragas dizendo que sofrerei um infarto antes dos quarenta (peço a Deus para que não seja fulminante, não está nos planos morrer tão jovem) justamente por não conseguir expressar o que sinto em sonoras frases de pé de ouvido. Quem convive comigo se ressente do meu calar e do prazer quase orgástico que sinto em ambientes silenciosos. Encaro com um interesse peculiar a um cientista a incapacidade das pessoas que não conseguem se manter em silêncio. Elas precisam falar sobre tudo. Sobre o dia, sobre a noite, sobre a chuva que cai, o sol que esquenta a pele, o penteado novo da vizinha, os ditames da economia, a pobreza global, o ônibus que nunca chega, a nova moda, a campanha política, o amor que terminou e o novo amor que chegou, e assim sucessivamente um assunto atrás do outro em desabalado matraquear. E isso não é uma crítica, é apenas o registro de um fato comum, às vezes meio irritante, mas comum, e, porque não dizer, é também um pouco de inveja... Li em algum lugar que a média de palavras ditas em um dia beira as dezesseis mil. Acho, não, tenho certeza de que sou capaz de passar um dia inteiro sem dizer ao menos uma palavra sequer, mas tenho cá minhas dúvidas se serei capaz de passar tanto tempo assim sem nem ao menos pensar em escrever umas linhas aqui e outras acolá. Como dito, ou melhor, escrito anteriormente, uso do papel por conta da minha incapacidade de usar a fala. Por isso escrevo. Para revelar o que sinto, para expiar meus pecados, para criar meu mundo particular, expor meu mundo particular, realizar novas descobertas, avançar no tempo, descrever a chuva que cai, contar estórias do amor que foi e que virá um dia, saber que o mundo é bão, levantar castelos, e, é claro, para escapar do infarto fora de tempo (e qual seria o tempo certo para um negócio desses?). Escrever, então, seja isso, a maneira perfeita de ser o que se sonha ser e de revelar, para quem sabe ler, o que se é de verdade.

21 de maio de 2008

Sobretudo Agora

(foto por Ssilence - DeviantArt)


Sobretudo agora
Após tantas e tantas palavras soltas
Somando subtrações e reviravoltas
Lançando dados em tabuleiro alheio
Semeando sopro na esperança de colher um vento sequer
Sobretudo agora
Depois de decisões tomadas
Após fases agudas e remissões
Perdoando e pedindo perdão
Olhos postos em prêmio que não se pode ganhar
Sobretudo agora
Após refletir o impensável
Compreender o irrefutável
Confundir o oráculo
Nomear o que já foi batizado
Renascer das cinzas
Ponderar no verso e na prosa
Sequer jogar moeda no poço
Trocar o trigo pelo joio
Perder o fôlego
Sobretudo agora
O cansaço trouxe a paz
A paz trouxe o entender
O entender trouxe a ação
A ação fez acontecer
E acontecendo, o mundo deu mais uma volta

19 de maio de 2008

O que cabe?

(foto por Herphotographs - DeviantArt)


Aquilo que tem meu número me serve, cabe
Tem também aquilo que não cabe
Por não caber a mais, sobra
Por não caber a menos, falta
Por não querer usar, birra
Por aceitar calado, covardia
Por querer ser feliz, sonho
Por falar a verdade, polêmica
Por ser o que se é, coragem
Por lembrar, saudade
Por fazer releitura, cópia
Por brincar, infantil
Por reclamar, resmungo
Por saber, ciência
Por inferir, palpite
Pormenores, detalhes
Por nomear, rótulo
Por existir, uso, experimento e avaliação
Por gostar, permanece
Por não gostar, descarte
Por amar, eternidade

11 de maio de 2008

Pontos de Fuga


(foto por NMC987 - deviantART)

Pretensões, ele as tem de sobra
E de resto, tudo o quanto ainda não fez
Rascunhos inacabados
História escrita aos trancos e barrancos
Tem mapa, bússola e estrelas para guiá-lo
Ainda assim, perde-se em devaneios
E, ao dar-se conta, está em qualquer lugar
Não reconhece pontos cardeais
Não tem problema, eles não o conhecem também
Não há dilema algum, nunca há
Não há bifurcação, atalho ou trilha no meio do mato
Há decisão difícil já tomada
Conseqüências que não se quer arcar
Sete vezes abriu o dicionário em busca de respostas
Mas não encontrou palavra que desse conselho
Não viu verbo que promovesse ação
Não vestiu moda que lhe fizesse belo
Não houve seio que lhe alimentasse

Inconformado? Sim, desde o primeiro não
Indeciso? Sim, desde a primeira escolha
Confuso? Sim, desde o ventre

E vê os pontos de fuga unirem-se no horizonte
Neles navega, rumo ao não se sabe onde

A Respeito dos Sonhos

(foto por Edlyytam - deviantART)


Para sonhar não é necessário carnê de prestação
Não é necessário carimbo de repartição
Não é necessário apresentar carteira da ordem
Sonhar é engravidar de idéias
Na esperança de parir sorrisos
Deixar a realidade alguns instantes
Acreditar que o mundo é bom
E que ele gira sim, ao redor do seu umbigo
Sonhar tem um quê de egoísta
De escapismo bobo
De loucura em pinceladas vigorosas
De nuvem em forma de Beagle
Olha lá, tem um Snoopy voando no céu
Tem também a garotinha ruiva
Droga! Está tão distante...
Mas onde está minha cabeça?
Isso é um sonho
Eu também posso voar!

4 de maio de 2008

Carta

(foto por Histerical Emotion - Deviantart.com)



Carta repleta de linhas
Costura idéias, ponto que aumenta conto
Confronta sonhos em palavras melódicas
Tece rede, lança ao mar, vai dar pescaria?
E caminha, caminha, caminha
Na rua tem de tudo, na sacada tem beijo roubado
Quitanda vende frutas e Quintana distribui sonhos
Carta cresce e desce a ladeira
Tem o estádio com torcida e seus cantos
Tem fogos de artifício para celebrar o dia
E tem dia que é assim, vôo rasante nas montanhas
Perto do sol, onde outras asas derretem
Mas não essas, não as de carta cheia de verbos
Sinônimo vira antônimo, pleonasmos são bem vindos
A gramática é esquecida, a liberdade é poética
A igualdade fala francês, a fraternidade é uma dádiva
E a casa caiu, poeta
Carta se recusa a crescer, gosta da Wendy, quer ser o Peter
Quer uma fornada do melhor pão de queijo
Xícara de café com leite, rede para dormir ao vento
Cafuné no final da tarde, sorriso bobo no rosto
Casa de frente para a terra do nunca
Não quer ponto final
Mas sabe que, mesmo que ele venha
Enquanto houver quem a leia
O ponto final será sempre mera formalidade literária...

3 de maio de 2008

Mesa de Bar

(foto por Ideasunknow - Deviantart.com)


Corrijam-me caso fale asneiras, mas, caso minha mente senil não esteja me pregando peças, há uma idéia bem firmada na antropologia de que a casa de um indivíduo, o lugar onde mora, é o centro do seu mundo. Não vou discutir a tese e nem tampouco confrontá-la, haja vista a minha completa incompetência para tratar do assunto. Mas gostaria de lançar uma idéia para discussão, e para isso acho que tenho a competência necessária, principalmente após o segundo copo. Há lugar que sirva a tantas necessidades humanas quanto uma mesa de bar? Para começar, falemos do óbvio, é um ponto de encontro por excelência. Sol, praia, cerveja gelada, boa música, mesa de bar e gente, toda sorte de gente, bonita, feia, gorda, magra, sarada, brancos, negros, amarelos, cabem todos. Mesa de bar é isso, democracia. Mas há outros aspectos a serem observados, como, por exemplo, o fato de que não há lugar melhor para se discutir os grandes problemas da humanidade. Em mesa de bar resolvemos a questão da fome, das guerras, do mercado financeiro, da escalação da seleção brasileira e dos crimes exaustivamente dissecados pela mídia na busca de pontos no Ibope. E não se discute apenas problemas desse porte, discutimos e opinamos também sobre os “pobremas” do cotidiano dos usuários da mesa. Chifre, desemprego, salário baixo, patrão escravocrata, a vizinha gostosa que não dá mole, o cachorro por quem você se apaixonou, menstruação atrasada, dor de dente, calvície e disfunção erétil (adoro a capacidade que nós temos de inventar termos bonitos para definir nossas mazelas. Acho, inclusive, que metade do dicionário do politicamente correto foi criado em mesa de bar. Onde mais se teria a brilhante idéia de trocar favela por comunidade? Onde isso ajudará as pessoas desfavorecidas socialmente que vivem em situação de risco? Viu? Troglomachos também sabem usar termos politicamente corretos.). Foi até cunhada uma expressão que identifica o usuário padrão que se utiliza de mesa de bar como consultório psicológico: Cachiblema, ou seja, cachaça, chifre e problema. Foi em mesa de bar que tive minhas melhores aulas de Teoria Geral da Administração II. Calma, as aulas não ocorriam no bar, apenas se estendiam até ele. Também foi em mesa de bar que dei o meu primeiro beijo, mais uma multidão deles, e também aquele que até hoje é o mais significativo entre todos. Em mesa de bar tomei decisões importantes, fiz besteira, falei o que não devia, falei o que devia, arrumei emprego, fiz planos para conquistar o mundo (não realizados até hoje, como podemos constatar...), apostei e perdi, e descobri que sou péssimo de apostas depois de algumas cervejas, cantei (desafinado, sempre), escrevi cartas de amor (não para meus amores, mas para amores alheios), contei e ouvi piadas, e fui apresentado à teoria do copo “meio cheio-meio vazio”, e descobri que a vida é mais ou menos assim como observamos o copo. Há dias em que ele está meio cheio e há dias em que ele está meio vazio. Qual o melhor lugar para filosofar, se não em mesa de bar? Em templo budista? Duvido. Prefiro o mosqueiro que tem aqui perto de casa. Por isso eu, mui respeitosamente, pleiteio junto aos grandes antropólogos nacionais para que sentemos em uma mesa de bar e discutamos o seu importante papel na vida da sociedade moderna. Não me estendendo mais, que se traga a saideira, a expulsadeira, a derradeira, a chama-conta...

29 de abril de 2008

À Máquina

(Foto por Leah Jones - Deviantart.com)


Pegou o copo meio vazio
Ou meio cheio
Como preferirem os otimistas de plantão
No seu rosto, a face de poucos amigos
Arremessou o resto do cigarro pela janela
Acendeu outro
Que venha o câncer, o efisema, o enfarte
O que mais vier será de bom tamanho
Lamentável é não vir nada, não imaginar nada...
O que foi feito do horizonte?
Em que momento o céu deixou de ser azul?
Esse apito? Já é o trem partindo?
E essas cortinas, quem as baixou antes da hora?
De um lado para outro
Quarto pequeno, janela aberta para a poluição matinal
Pegou o copo, completamente vazio
E então, otimistas, o que dizer agora?
Encheu os olhos, encheu o copo
Testa franzida encostada na parede branca
Folha em branco
Mente em branco
Vida em branco
Máquina esperando
A velha ansiedade da primeira linha
Aquela que nunca quer sair
Que não quer brotar
Mas hoje não teremos conto natimorto
Sentou diante do carrasco travestido de máquina, escreveu
“Pegou o copo meio vazio...”

25 de abril de 2008

Zero Absoluto

Foto por Chamstudio - Deviantart.com


Lá fora
Céu azul
Nuvens brancas como a barba de Deus
Ele tem barba?
Espero que sim, é uma imagem reconfortante
Tomara que também tenha paciência infinita
Vou precisar, um dia...

Lá fora
Dia de sol requentando sonhos
Grama verde, toalha posta no chão
Flores multicores, cesta cheia de guloseimas
Muito zum-zum, muito alarido, gritos infantis
Alguém empinou uma pipa engraçada

Isso é lá fora...

Aqui dentro?
Céu carregado
Silêncio
Neve

Melhor assim...

Zero absoluto
Zero risco

21 de abril de 2008

Silêncio e Estrelas

(Foto por AccessQ, Deviantart.com)


"Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?" [Quintana, in Eu Fiz um Poema]

Não há estrela que me faça cantar como outrora cantei

“E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...
E é tão puro o silêncio agora!”
[Quintana, in Canção de Vidro]

Façamos então, do silêncio, morada
E nele naveguemos e miremos estrelas
Compremos binóculos...
Para que a estrela mais distante não deixe de ser admirada...
Desejada...
Alcançada!
Fiquemos em silêncio então...
E deitados no chão, na relva e de mãos dadas
Usemos os binóculos e miremos nossos anseios
Guiados por estrelas, seguindo nosso norte
O meu e o seu, talvez o nosso
Talvez...
Empreguemos então, a leveza...
Esqueçamos o habitual, mas sem deixar de colher a cumplicidade...
Sejamos nós mesmos, sem condicionantes!

"As únicas coisas eternas são as nuvens..." [Quitana, in Epígrafe]

Corramos na chuva
Sejamos como crianças
Sonhemos como adultos








Ps.: Outro poema feito a quatro mãos com a Ana Fernandes via MSN (God bless technology), desta feita com inspiração do mestre Quintana (Ok, assim fica fácil fazer poesia, não?). Todos os versos dele foram tirados do blog Eterno Espanto.

Prefiro o Bonde da Lapa


Caminhava pelo centro de minha adorável cidade, João Pessoa, refletindo sobre coisas tão diversas quanto os problemas da segurança pública e o calor infernal dos últimos dias, quando, de repente, sou retirado dos meus devaneios por um cartaz singular que anunciava um espetáculo musical a ser apresentado em breve. Dizia assim: “Bonde do Maluco: O Fenômeno do Arrocha”. Definitivamente nasci na época errada e provavelmente no país errado também. Alguns felizardos podem dizer que viram surgir os primeiros acordes do Blues. Outros tantos podem dizer que acompanharam a gestação e nascimento do Rock’n’Roll. Alguns me dirão que ouviram o Punk Rock chocar ouvidos nos subúrbios britânicos. Muitos ainda se deleitarão em me contar que estavam nas praias do Rio de Janeiro quando a Bossa Nova veio ao mundo em acordes melodiosos de violão. E quanto a mim? Bem... eu posso orgulhosamente dizer que tive o incomensurável prazer de acompanhar o surgimento e queda de vários “fenômenos musicais”. Por exemplo, vi o Axé surgir em rimas suspeitas que falavam dos penteados da nega do cabelo duro e em seguida passaram a falar de mulheres que rebolavam sem parar e tinham predileção por gargalos de garrafa. Em seguida pude me regozijar com a ascensão do pagode romântico pré-fabricado. Eram aquelas bandas, quer dizer, grupos (por que banda é outra coisa) formados com seis ou oito caras legais, cada um fingindo tocar um instrumento, sempre fazendo uma coreografia enquanto falavam de cachaça, chifre ou problema. Pude ver o tradicional som do interior de Goiás ser reduzido ao fenômeno das duplas sertanejas. Era fácil, bastava juntar um cara que cantava pouco com outro que não canta nada (vide Zezé e Luciano para maiores esclarecimentos) e escrever canções que irremediavelmente falavam de, vejam só que criativo, chifre, cachaça e problema. Pude também me deliciar com as bandas de forró elétrico criadas no Ceará. Como bom nordestino que sou, vou dizer apenas que, se tivesse oportunidade, Luiz Gonzaga retornaria do além para passar a faca peixeira em todas essas bandas moderninhas (com nomes esquisitos, vide “Forró dos Plays” e sim, pode gargalhar agora) e transformá-las em picado para cozinhar uma boa buchada! Mas a coisa não pára por aí. Tenho que lembrar do Funk, pois foi ele que me trouxe a estas linhas. O Bonde do Maluco vai passar em minha cidade. Isso me preocupa. Tirem as crianças da sala, tapem os ouvidos, fechem os olhos ou corram o risco de serem “arrochados”. Nós não merecemos mais um fenômeno desses. Certamente alguns me rotularão de velho, chato e resmungão. Posso ser chato e resmungão, inclusive nunca neguei, mas, desculpem-me os moderninhos de plantão, eu não aceito nem que me digam que isso de bonde, seja do Maluco ou do Tigrão, é música, pois não é mesmo. E o que mais posso fazer além de lamentar? Enfim, que fique ao menos registrado este meu lamento. E, apesar de nunca ter estado no Rio de Janeiro, em se tratando de bonde carioca eu prefiro o Bonde da Lapa. Nele há muito mais poesia, elegância, história, beleza e música do que em qualquer outro bonde, seja ele maluco ou são.

20 de abril de 2008

Pular?

(Foto por Little Miss Jackass - Deviantart.com)



Não demoro, volto logo
Ainda é cedo, não há motivo para aflições
Quando for tarde saberemos
Ou, ao menos, deveremos sentir
Veremos folhas mortas caírem em carrossel
Sol se pôr, sem festa e sem beijo de despedida
Mas quero aproveitar o fim da tarde
Quero o sabor da minha infância
Quero o prazer do primeiro olhar, da descoberta
Não serve redescobrir, não é novidade
Serve a panela onde foi feita a cobertura de chocolate
Serve o pé de caju em dia de sol
Serve mar colorido e contar conchinhas na maré vazante
Serve se for eu, se for você, se formos nós
Melhor não pensar muito
Mas é bom ter certeza da altura do tombo
Prudência é saber quão profunda é a água
Depois é só fechar os olhos
Tapar o nariz
E pular?