3 de maio de 2008

Mesa de Bar

(foto por Ideasunknow - Deviantart.com)


Corrijam-me caso fale asneiras, mas, caso minha mente senil não esteja me pregando peças, há uma idéia bem firmada na antropologia de que a casa de um indivíduo, o lugar onde mora, é o centro do seu mundo. Não vou discutir a tese e nem tampouco confrontá-la, haja vista a minha completa incompetência para tratar do assunto. Mas gostaria de lançar uma idéia para discussão, e para isso acho que tenho a competência necessária, principalmente após o segundo copo. Há lugar que sirva a tantas necessidades humanas quanto uma mesa de bar? Para começar, falemos do óbvio, é um ponto de encontro por excelência. Sol, praia, cerveja gelada, boa música, mesa de bar e gente, toda sorte de gente, bonita, feia, gorda, magra, sarada, brancos, negros, amarelos, cabem todos. Mesa de bar é isso, democracia. Mas há outros aspectos a serem observados, como, por exemplo, o fato de que não há lugar melhor para se discutir os grandes problemas da humanidade. Em mesa de bar resolvemos a questão da fome, das guerras, do mercado financeiro, da escalação da seleção brasileira e dos crimes exaustivamente dissecados pela mídia na busca de pontos no Ibope. E não se discute apenas problemas desse porte, discutimos e opinamos também sobre os “pobremas” do cotidiano dos usuários da mesa. Chifre, desemprego, salário baixo, patrão escravocrata, a vizinha gostosa que não dá mole, o cachorro por quem você se apaixonou, menstruação atrasada, dor de dente, calvície e disfunção erétil (adoro a capacidade que nós temos de inventar termos bonitos para definir nossas mazelas. Acho, inclusive, que metade do dicionário do politicamente correto foi criado em mesa de bar. Onde mais se teria a brilhante idéia de trocar favela por comunidade? Onde isso ajudará as pessoas desfavorecidas socialmente que vivem em situação de risco? Viu? Troglomachos também sabem usar termos politicamente corretos.). Foi até cunhada uma expressão que identifica o usuário padrão que se utiliza de mesa de bar como consultório psicológico: Cachiblema, ou seja, cachaça, chifre e problema. Foi em mesa de bar que tive minhas melhores aulas de Teoria Geral da Administração II. Calma, as aulas não ocorriam no bar, apenas se estendiam até ele. Também foi em mesa de bar que dei o meu primeiro beijo, mais uma multidão deles, e também aquele que até hoje é o mais significativo entre todos. Em mesa de bar tomei decisões importantes, fiz besteira, falei o que não devia, falei o que devia, arrumei emprego, fiz planos para conquistar o mundo (não realizados até hoje, como podemos constatar...), apostei e perdi, e descobri que sou péssimo de apostas depois de algumas cervejas, cantei (desafinado, sempre), escrevi cartas de amor (não para meus amores, mas para amores alheios), contei e ouvi piadas, e fui apresentado à teoria do copo “meio cheio-meio vazio”, e descobri que a vida é mais ou menos assim como observamos o copo. Há dias em que ele está meio cheio e há dias em que ele está meio vazio. Qual o melhor lugar para filosofar, se não em mesa de bar? Em templo budista? Duvido. Prefiro o mosqueiro que tem aqui perto de casa. Por isso eu, mui respeitosamente, pleiteio junto aos grandes antropólogos nacionais para que sentemos em uma mesa de bar e discutamos o seu importante papel na vida da sociedade moderna. Não me estendendo mais, que se traga a saideira, a expulsadeira, a derradeira, a chama-conta...

4 comentários:

Zélia Palmeira disse...

Bom,João,eu não tenho gabarito para entrar a fundo nessa questão.Você sabe que eu não bebo...Já tomei algumas de fazer chorar, sorrir e ter até ressaca.E,devo confessar que alguns aspectos da vida que tenho hoje foram decididos ou definidos em mesa de bar.Mas o fato é que essa não é a minha praia.Eu sempre estive em uma mesa de bar(e por esse "bar" entenda-se,também,a minha casa).Na maioria das vezes, bebendo refrigerante. /) Talvez,por isso eu não consiga "entrar" no seu texto.A minha "diversão" ou "filosofia" é indiferente se eu estou bebendo ou não,em mesa de bar ou não.Ouvi até meu marido (que deu em tempo na bebida e no cigarro :O É verdade!E o cigarro,ele disse que vai largar de vez!Olha a torcida aí!!!),dizer; "Vi que é possível nos divertirmos sem bebida".Claro que é.E mesmo sem beber, passei momentos muito agradáveis em mesa de bar.Eu só sinto que as discussões,sejam de que tipo forem,que são feitas nesses locais fiquem apenas por lá mesmo...

Alice disse...

Eu já estive em mesa de bar. Mas deixarei minha história para o texto que vou escrever. E sobre a sua história, verdadeira e humana. Engraçada e bem nossos dias.

Você é cronista-poeta, John

Letícia Que Escreve Até Dormindo.

Camilla Tebet disse...

João, essa é muito boa mesmo. Continuo achando que a casa deve ser o centro da vida de um ... mas como há tempos não tenho uma casa só, não sei dizer se um dia chegarei a uma idade avançada e direi olhando para um livro na estante : "Nossa, esse livro está aqui há 8 anos". Deve ser essa a sensação de casa. Mas por enquanto também continuo me aninhando em mesas de bar. E quem já não discutiu, em uma boa mesa de lata, se o logo do Marbolro foi feito pela Ku Klux Kan... é de papo em papo se faz uma casa, com diferentes convidados todos os dias. Mas fico aqui pensando: e se montarmos uma mesa de bar, mas realmente uma mesa de bar em casa e convidarmos todo mundo?? Será assim? O seu post fala de como viver e não de mesa de bar... como vc... fala de viver em mesa de bar não é?

Luci disse...

Puxa, João, adorei o texto! Ri muito e, depois, me vi em muitos trechos. Concordo contigo... Já me aconteceu de tudo em mesa de bar. Mas faz tanto tempo... Hoje meu reino é mesmo minha casa. A mesa de bar ficou na saudade. Saudade mesmo, viu...

Bjo,

Luci:)))