27 de junho de 2008

Luto é Recado Na Geladeira

( Foto por Mash11 - DeviantArt)


Era quarto de paredes escuras
Cortina vermelha pendurada na janela fechada
Boneca de pano com sorriso malévolo
Abajur de cores não descritas no dicionário
Teia de aranha junto do mofo no teto
Cheiro de velhice e juntas que estalam
Era um quarto
Era mais da metade
Era tanto quanto inteiro fosse
Mas tinha lápis
Tinha papel
Tinha esperança colorida em cordel
Escreveu em nanquim
Postulados de além vida
Desejos para antes do fim
Relógio quebrado apontando horas passadas
Tempo sempre igual
Temporal anunciado que chegou sem avisar
E na geladeira tem o recado de quem foi pensando em voltar
Mas o menino perdido na rua achou por bem fazer mal
Quem foi, ficou na calçada
Quem ficou, guarda lembrança que não vai
No quarto, tintas evanescem
Saudade é dor que não tem cor

4 comentários:

Alice disse...

Sempre que surge um poema, surge imagem e vontade de dizer algo. Digo que essa saudade bem descrita faz a dor ficar melhor. Ir embora também é voltar, John. Seus poemas de relógios e horas paradas me trazem saudade e por isso escrevo. Acho que escrevemos porque temos saudade e a cura está na palavra. Já que ela nunca é dita como queremos, fazemos nossa própria voz. Poemas de vento e tempo, John. Poeta que conhece imãs de geladeira e saudade sem lápis de cor.

Always writing the right point...

Crazy Diamond.

Camilla Tebet disse...

Puxa, valeu a esperea. "Saudade é dor que não tem cor".
Tenho uma queda pela saudade , sabe? Acho que saudade pressupõe que um dia houve amor, e por isso sempre tem um tonzinho de cor, deixado no fim. "Era tanto quanto inteiro fosse". E se foi, por isso deixou saudade. Então o poeta me diz que saudade é assim, e eu concordo que tbém é.. tanto quanto inteiro fosse o amor.
valeu a espera.
Bjos procê

Miguel Barroso disse...

Aquartelei nas palavras, pus a saudade no bolso e comi um pedaço de amor, ainda no quarto esse amor senta-se e permanece estoicamente activo na magnitude uterina do seu esplendor.



Abraços do EU, SER IMPERFEITO e d´A SEIVA

Zélia Palmeira disse...

Ohhhhhhh,João...Vc está tão "eu" ultimamente...Acho que vc entende o que eu quero dizer,não é? :O

Esse é o poder da literatura:aproximar pessoas de todos os lugares.Fazer com que elas se entendam melhor e entendam ao outro a partir do que é expresso.Claro que o seu texto marca um retrato mas eu entendo bem a questão da qual ele trata:saudade - dor que não tem cor,relógio quebrado em horas passadas,tempo igual...

Cada vez mais eu me surpreendo com vc (não que vc não fosse bom antes!hehehehe).Percebo uma certa maturidade (re)nascendo e fico feliz por poder compartilhar isso com vc!

Bjo!

PS:Tô sentido falta da Ana onde andamos por aqui.Vê se vc dá um empurãozinho nela que o meu eu vou dar agora mesmo. ;)