2 de julho de 2008

Sobre Café e Cigarros

"Dêem-me café, e ninguém se machucará"
(Foto por Sadiya - DeviantArt)

Letícia, escritora e minha amiga pessoal, já alertou-me que é de bom alvitre que o autor não escreva de maneira tão pessoal que se reflita por inteiro em seus textos, como se em um espelho estivesse. Sorry, Crazy Diamond! Aqui vamos nós de novo...


Zélia, escritora, amiga pessoal e oráculo eventual, disse-me, certa vez, que não é interessante ficar contando períodos de tempo, que o melhor é viver os dias e deixar que o que se quer esquecer se esvaneça naturalmente. Desculpe, capitã! Aqui vamos nós de novo...


Valcir, escritor, irmão, oráculo permanente e companheiro de cachaças homéricas, disse-me, como bom troglomacho que é, que eu tenho uma vontade de ferro, haja vista haver me livrado de dois vícios ao mesmo tempo, a saber, o cigarro e o café. Bom, quanto ao café, aqui vamos nós de novo...


Ana Fernandes, escritora (não vou dizer irmã, por que aí seria incesto!), paixão primal, amante e companheira de todos os momentos, a todo tempo diz que me ama e que, depois que parei de fumar, meu odor melhorou substancialmente, e que, depois que parei de tomar café, meus estresses praticamente sumiram. Perdona, mi amor! Calma, quanto ao cigarro, fique fria, mas já quanto ao café...


O caso é o seguinte. Quem me conhece sabe que fumei por cerca de dez anos, que já havia tentado parar com o cigarro um sem número de vezes, e que no dia 13/01/2008 eu fumei o último deles até o presente momento. O que nos dá hoje, neste momento, exatamente 171 dias, 18 horas e 45 minutos sem colocar um cigarro na boca. No rastro da vontade de parar de fumar eu também cortei o café. Quem fuma sabe, um nasceu para o outro, assim como a coca-cola nasceu para o rum, ou a cerveja para a praia, ou o whisky para os dias frios, ou o vinho para noites de amor... ok, eu bebo sim, e vou vivendo!


Apesar de haver cortado o hábito de fumar, não me tornei um ex-fumante Xiita, até por que ainda sinto uma vontade danada de pegar uma carteira de Marlboro, colocar todos os cigarros na boca e acendê-los de uma só vez. Juro que um dia eu ainda faço isso. E digo mais, quem fuma e for mais macho do que eu (e isso também vale para as moças que forem mais mulher do que eu!) que continue fumando feito uma caipora. Ninguém é inocente nesse quesito, todos sabem dos riscos e cabe a cada um decidir se deve fumar ou não. Por mim, tudo bem, e se for amigo meu pode ficar certo de que, ainda que esteja internado em estado terminal com câncer na garganta, e quiser fumar, eu levo o cigarro, acendo e atiro em qualquer médico que queira impedir esse ato de prazer inenarrável.


E com relação ao café? A verdade é que já tomei tanto café em minha vida quanto há água correndo no rio Amazonas. Tudo bem, o Amazonas é exagero, mas que chega a ser como o Solimões, ou o Negro, isso chega sim. Mas quem pode me culpar disso? Grãos selecionados, cultivados em solos bem tratados, torrados no ponto adequado, tirados por baristas hábeis e servidos em xícaras de porcelana pré-aquecidas. Aquela fumaça, que descreve rotas exóticas em direção ao meu nariz (hoje liberto da nicotina, o que me dá um olfato ainda mais apurado), e que adentra meu corpo e seqüestra o meu desejo, quase num ato de volúpia. Capuccino, Expresso, Late, Russo, com leite, variantes diferentes do mesmo prazer. Some-se a isso o reconfortante hábito de sentar à mesa do coffe shop com os amigos e conversar sobre tudo e sobre nada. Lembra-se, Ana, que foi assim que tudo começou?


E, antes que me reputem “portador de necessidades especiais relativas à cafeína” (expressão politicamente correta para “viciado em café”), quero deixar claro que, apesar de todo o prazer redescoberto ontem, não estou tomando cafés como outrora. Hoje minha degustação resume-se a uma xícara, apenas uma xícara diária, mas que, transformado em um momento único e especial, vale como se fosse a última.

4 comentários:

Camilla Tebet disse...

QUe texto gostoso, que texto honesto. Acho lindo e de bom alvitre quando um autor se mostra assim, de forma limpa e clara, honesta e gostosa em textos que reflitam seus momentos. Que são dias contados sim. Vc veja só que vitória, vc comemora 171 dias sem o vício do amigo assassino que éo tal do cigarro.
Sem super exposição vc colocou ai de maneira muito sóbria suas vitórias e sua fraqueza.
Adorei o texto, diferente de todos os outros que já fez.
E ainda se mostrou um grande amigo, que apoia as decisões adultas, apesar de perigosas, de outros amigos.
Eu adorei e para comemorar os seus 171 dias com vc, infelizmente eu ainda acendo um cigarro e tomo um café.
Poeta, poeta, muito bom !

Alice disse...

João Cronista,

Li seu texto ontem e fiquei com cara de "esse John faz de tudo". Adorei a nova forma de redigir, pensamentos e a linha de crônica que o texto tomou. Sempre soube que vc era o "escritor das verdades". Maior prazer ler vc, amigo.

Bjs.

E vou tomar uma xícara de café e fumar um cigarro em homenagem. :)

Zélia Palmeira disse...

João,querido amigo,escritor como eu ,pessoa que me faz rir e que me dá "provas" do quanto uma amizade é valiosa.Além de Jardineiro Fiel - tenho certeza! ;)

Disse e vou repetir que os seus textos estão me surpreendendo mais e mais.Entendo sobre o que a Letícia falou mas também sei que um escritor não deixa de ir para o céu por escrever textos "pessoais".Valcir,está certo sobre a sua vontade.Uso vc como exemplo a toda hora para o meu marido - ele tá naquela do vai e vem.Acho que a Ana tem razão quanto ao café ter um poder "estressante".Já falei sobre isso com o meu mesmo marido mas ele continua tomando baldes de café.E só para não terminar minhas considerações sobre o texto sem falar do café,nunca fui de tomar café.Era proibido em casa:"criança toma leite",eu ouvia.Mesmo assim,eu adorava tomar,de vez em quando, uma xícara de café coado na hora com um pedacinho de bolo ou uma tapioquinha.Hoje não faço mais isso porque a minha gastrite não deixa.Para não morrer de desejo,às vezes fujo à regar com um gole de café.Acho que o pior no café é mesmo o aroma.Passo todas as manhãs pela São Brás.O cheiro do café me toma e eu quase flutuo até a fábrica para roubar um golinho de café.Hummmmm

Voltando ao texto,sem ter saído dele,achei de grande criatividade.Adorei a forma como vc apresentou a sua identificação pessoal de forma organizada,coerente e com o humor que lhe é peculiar.

Quanto ao tempo que não se deve contar é aquele que segue segundo por segundo.De vez em quando,é bom parar e refletir sobre aquilo em que este Senhor nos transformou.

Parabéns pelo trabalho!
Ah!E um textinho pessoal é sempre bom porque a gente não perde o rumo das "fofocas" kkkkkkkkkkkkkkk

Ella disse...

João,
Eu que odiava, hoje idolatro. Sou viciada sim.
Se vc vier à São Paulo recomendo:
- Orfeu ou Fazenda Pessegueiro (Latte Café - centro da cidade)
- Dona Mathilde -espetacular!!!! (no Santa Luzia - Al. Lorena)
- Suplicy (no Suplicy - em frente ao Santa Luzia).
Bjs

PS. Andei sumida, mas estou de volta.