4 de julho de 2008

A JANELA

Moro pertinho do mar. Amo o mar, é tão tranquilizante o mar e de minha janela eu olhava para ele, há muito tempo atrás. Hoje não olho mais, só vejo a selva de concreto e castelos de pedras que se chamam casas.
Mas, antes da minha janela via o Sol nascer no horizonte a encher de cores o céu, matizando suas nuvens às vezes claras outras vezes escuras. Era um espetáculo mui belo. De vez em quando se armava um tremento temporal, com raios que cortavam o ar para o mar. Aí ficava tudo um breu, credo! Fazia medo. Desabava do céu um tremento aguaceiro. Depois da tempestade vem sempre a bonança, puxa esta tirada já é velha, mas vamos em frente assim mesmo. Então, o Sol dava o ar da graça novamente, porque aqui no nordeste tem isso da chuva ser ligeira, não tem preguiça de ficar “chovendo no molhado”, dias e dias. E junto ao Sol vinha também o vento sudeste outras vezes nordeste, não sei, so sei que ele vinha e ficava balançando as folhas dos coqueiros do meu quintal ou os coqueiros que molduravam a praia com seu verde amarelado das suas palhas que serviam de galhos para as aves posarem.
Ao entardecer via também da outra janela o Sol se pondo no horizonte distante, sim, porque uma janela fica defronte do mar e a outra dá para a rua que passa por trás, naquele vai e vem incessante de carros. Aí o espetáculo era outro, tinha que ser rápido, pois o cenário mudava de cor todo minuto e cada um mais lindo.
Neste tempo tinha ainda dunas e verdes no horizonte, hoje não tem mais, passaram o trator e tudo acabou só ficou o concreto, mas isso é outra história.
À noitinha surgiam também as estrelas e dependendo do dia a esposa do Sol também dava o ar da graça com sua luz prateada a clarear o mar. Nestas noites estreladas eu via o Cruzeiro do Sul brilhando e cintilando sobre o mar, como a chamar os pescadores para pescar naquel mar azul escuro. Eu ficava com água na boca com vontade de passear pela praia, ou pescar com minha rede feiticeira que parecia a cabeleira de uma bruxa que tomava banho no mar. Era tão gostoso pescar numa noite de luar, com as fadas que me acompanhavam e me faziam flutuar como eu fosse parte do mar.
Cada lance da rede eu ficava com uma alegria louca quando encontrava um peixinho que vinha coberto de restos de folhas e algas mortas, mas não me importava com o resultado da pescaria, o que importava era a felicidade que tudo isso trazia.

Traduzindo em versos...

DA MINHA JANELA

Vejo o Sol se pondo, fascinado...
O céu em tom de vermelho matizado;
Ao fundo as nuvens escuras à clarear,
diluindo-se no ar os nimbos aguaceiros...
Contrapondo a este cenário, observo coqueiros,
balançando suavemente suas folhas no ar...

Como que para dar boas vindas aos andorinhões,
que circulam em bando de enorme proporções...
Ao entardecer, da minha janela aprecio afinal,
o Sol desaparecer por cima do manguezal.
A escuridão cai depressa em consequência....
e a Lua surge, e as estrelas em sequência...

Olho para céu e percebo o Cruzeiro do Sul
brilhando sobre o mar azul.
Fico olhando o mar pela janela
e vejo saírem para pescar os barcos a vela...
E a Lua brilhando com sua luz prateada o mar...
e fico imaginando como é gostoso nadar.

Saio para uma pescaria com o luar a inspirar...
A gente fica leve,... flutua,... e brinca como um louco.
O resultado da pescaria é pouco, não satisfaz...
O que importa é a felicidade
que tudo isso traz.

By Joseph (Aracaju, abril, 2001)

3 comentários:

Zélia Palmeira disse...

Adoro Janelas.Sempre fui fascinada por elas.Faço a terapia da janela mesmo antes de saber que ela existia, desde menina.Faço isso ainda hoje.E,como nem sempre elas estão disponíveis,carrego minha Janela comigo.Abro um espaço na parede e a minha liberdade volta.Faça chuva ou faça sol...

Seja bem-vindo a este espaço,Dalmo.


Um abraço!
Zélia

PS:Só para apertarmos mais os laços,eu sou cunhada da Letícia,tá?

Alice disse...

É como escrever, Dalmo. Seu poema descreve o mar, o céu, pescarias e fala do prazer que tudo isso nos traz e me fez pensar no ato de escrever. Jogamos as palavras e ,muitas vezes, não importa o resultado, mas sim, o prazer de escrever e se deixar levar por nossa criação. Você fala de coisas do nordeste. São coisas que nós podemos ver, todos os dias, de nossas casas e janelas. Ver o sol, a chuva rápida e o cruzeiro do sul. Sabe que também procuro o cruzeiro do sul? Sempre que olho para o céu o procuro. Me faz lembrar de minha infância. Eu adoro olhar estrelas.

Um prazer receber um novo poeta aqui em nossa Filosofia de Guardanapo. E você chega sendo feliz. Poema de saudades e feliz.

Bjs de admiração.

Letícia

E sinta-se em casa. Escreva e faça o nosso universo aumentar.

Joseph Dalmo Faria Almeida disse...

Zélia e Alice, obrigado pelos comentários e pela janela que vocês abriram para mim.
Bjs