17 de junho de 2008

Desatino de Solitário


(foto por Skize - DeviantArt)


Hoje eu procurei o seu corpo em minha estante. Ele não estava lá. Desconcentro e tomo remédios para dormir. Faço coça de mim mesmo, estereótipo de autor noir ambientando conto de terror em favela carioca. Fui ao quarto, fui à sala, olhei pela janela, mirei céu, cavei terra. Ele não estava lá. Troco o remédio por doses cavalares de álcool e sinto-me bailarino ao ver a minha casa rodopiar. Passo mal e conto segredos para o vaso sanitário. Talvez não fossem tão segredos assim, os vizinhos ouvem tudo e comentam baixinho o quanto o pobre coitado sofre por amor. E amor não é boa medida de vida saudável, ou talvez seja, ou talvez não seja, ou talvez seja. E desse jeito, puxando e encolhendo feito acordeom desafinado, vou cantando a minha história em versos e trovas e cordas e acordes que fazem a alegria alheia. A minha? Tem dia que sim, tem dia que não. É verdade. Já não sei de mais nada, confusão é meu sobrenome, meu nome é indecisão, o apelido é talvez, mas pode me chamar de Zé. Ninguém. Procurei, não achei, e deu aquela vontade de chorar em silêncio. Queria ao menos saber gritar de dor. Mas não fui educado assim. Obrigado mamãe, obrigado papai. Alguém sabe dizer de onde vem o maldito canto da sereia? Pago recompensa gorda para quem conseguir matar essa bruxa. Pago recompensa em dobro para quem me ensinar a não dar-lhe atenção. Lanço pragas ao vento, boa parte delas retorna e estapeia minha face. Lamúria de menino grande que perde a noção do que é certo e errado, que chora no canto da parede sozinho, que faz bico tão grande quanto sapato de palhaço. Menino exagerado que vê o que não existe.

Traduzindo em verso.

Hoje procurei o seu corpo
Mas não o encontrei
Sinto falta
E é daquelas que remove a razão
Quero mais de você
Sei que a distância não é para sempre
Sei que amanhã vou sentir o aconchego
Mas, na ausência, eu perco a noção
Invento mil histórias sem sentido
Imagino monstro sumério em tragédia grega
Ode romana em dia de incêndio
Exagero essa solidão fugaz
Que parece mil noites de história triste
Faço votos, pago prendas, rezo terço
Peço, simplesmente
Volta
Dá-me mais um pouco
Faz esse dia ser único entre tantos dias iguais
Embala meus sonhos de homem maduro
Seja a música do meu verso
Seja beijo, abraço, cheiro
Deixe que eu
Seja em você

6 comentários:

Alice disse...

"Deixe que eu
Seja em você."

(João Neto)

Da imagem do homem que se afoga ao canto da seria. Tudo uma cadeia de lendas que se agrupam em nossa vida. Texto de uma constante masculina que se apega ao mito da mulher e do amor romântico e poema que dá vida ao texto que tem fim e não tem fim por ser uma batalha do que se quer e o que se acredita querer. Acho seus textos de uma força tão veloz e tão significativa para mim. Contorno da mão do poeta. É bagunça arrumada, sabe? Quarto bagunçado e livro organizado. Cada dia que passa, venho aqui e fico olhando a sua criação. Criei esse blog e aos poucos, vc cresceu e já está do tamanho da crença que tenho de que, talvez, um dia, a poesia seja a cura. E será. Ela já é. De poeta melancólico ao sentimental feliz e delirante. Leio sempre porque admiro e respeito. Tenho livros. Leio livros. Mas não deixo de vir aqui e ler. Uma Cadeia de pensamentos onde surgem mitos, estereótipos, mãe e pai e nossa vontade de laçar a mentira e ser verdade.

You do it, John.

Always around,

Crazy Diamond

Camilla Tebet disse...

Pelo amor do guarda, vc escreve cada dia melhor, ai vem a Alice e faz uma análise poética da sua poesia e fico eu aqui, perdidinha, embasbacada com o seu texto e com sua capacidade latente de um amor que nem desconfio conhecer a profundidade. Não tem como eu comentar. Outro dia deixaram no meu blog esse comentário: "Ainda sob impacto aqui. Alguém anotou a placa?" Repito pra vc querido poeta.
Um beijo

Alice disse...

John,

Estava abusada das cores. Mudei tudo. I hope you like it. Let me know, ok?

See you.

João Neto disse...

Camilla, Obrigado sempre pelos comentários.

Alice, aqui quem manda é você. E mesmo se não mandasse, gostei de tudo.

Zélia Palmeira disse...

João,o melhor comentário que eu poderia fazer ao seu texto,é dizer que hoje ele poderia ter sido escrito por mim...

Congratulations,dear poet! ;)

Narradora disse...

A fome para a saudade é uma figura da Clarice, que cabe tão bem...
Aproveite a luz, nem sempre ela está na medida certa..rs
Abraço.