13 de janeiro de 2008

Sobre o Sorriso

Imagine a cena. Esforce-se com louvor. Tire tudo de sua cabeça e pense só no que se descreve a seguir. Imagine uma grande represa, tipo aquelas que servem para reter água e gerar energia. Agora imagine um pequeno buraco no meio dela, de onde está escorrendo um filete d’água. Este pequeno buraco está aumentando de tamanho e a estrutura está fraca demais para conter aquele monte de água por trás. De repente temos realmente um grande buraco e a água está jorrando com força. Por fim, tudo se rompe, e a água transborda levando arrastando toda a barragem. Conseguiu imaginar a cena com detalhes? Viu a água correr para todos os cantos numa miríade caótica? A água levando tudo? Não pense nos estragos que ela vai causar. Pense apenas no efeito explosivo da situação. Conseguiu?? Nãããããão???

Tudo bem, talvez essa não seja a melhor imagem para definir uma gargalhada bem gostosa depois de se ouvir uma piada. Mas creio que é mais ou menos assim que a coisa funciona. Pois um bom sorriso é simplesmente irresistível. Tanto para quem está sorrindo, como para quem está assistindo a este que é um dos milagres da natureza.

Se o amor é chama que arde sem se ver, o sorriso, na grande maioria das vezes, é o perfeito contrário. Ele se revela nos olhos que brilham e se estreitam, dando aquele ar oriental ao rosto, e algumas pessoas realmente são pródigas em conseguir esse efeito, embelezando ainda mais o ato. Revela-se na música que jorra de dentro da pessoa, que vem do coração e toma todo o corpo, fazendo-o gesticular, se dobrar, levando algumas vezes ao próprio descontrole das funções orgânicas. O que foi? Já aconteceu com você? Não se preocupe, pois tenho certeza que valeu a pena pagar o mico, não é verdade? Outras vezes o sorriso é apenas um pequeno mover dos lábios, às vezes nada disso, e aí cabe ao observador encontrá-lo na profundidade dos olhos do outro. É o sorriso íntimo. Para ser percebido requer cumplicidade...

Existe o sorriso meigo, aquele meio disfarçado, maroto em sua essência, prometendo um sem número de inconseqüências. O sorriso infantil, ingênuo e completamente descomprometido. Há o sorriso de amor, mágico e ansiosamente esperado pelo parceiro. Há o sorriso safado, que encanta, seduz e promete momentos inesquecíveis. Tem também a gargalhada contagiante, revelando um estado de espírito superior, alguém que transcendeu todos os reveses do momento.

Há também aquele sorriso especial. Aquele que certamente é exclusivo de um certo alguém. E por ser especial, assim também ter que ser a pessoa. Alguém por quem se suspire e se espere. Cada sorriso dela é importante, pelo fato de ser ela a sorrir. E fica-se feliz por que ela está feliz. Não importa se seja uma gargalhada, um pequeno repuxar de lábios ou o que quer que seja. É único e reverenciado como um momento místico, um abrir dos céus com coro de anjos e tudo o mais que se tiver direito.

Há o sorriso dissimulado, um esgar despropositado. Tal sorriso não deveria ser assim chamado, já que tecnicamente não o é. Mas o que se há de fazer quando ainda existe alguns que teimam em brindar a falsidade? Estes deveriam ser sumariamente punidos, pois difamam aquilo que é a festa da alegria. Do prazer em reencontrar, do ouvir e se contentar, do gostar de estar junto. De simplesmente curtir bons momentos em boa companhia. Não que não se sorria só. Estamos nós lá no meio da rua, dentro do ônibus, junto com o vizinho chato dentro do elevador, e de repente vem a lembrança e o corpo não resiste. Isso muitas vezes nos confere um atestado de loucura, no mínimo de esquisito. Mas louco mesmo é quem se priva de sorrir.

Sorrir faz um bem quase irresponsável. Relaxa, descontrai e modifica a forma de se encarar o mundo. Parece que tudo é perfeito, que pássaros cantam, flores desabrocham, e a vida é sempre uma beleza. A ótica de quem ri é diferente, ou talvez seja preciso ter uma ótica diferente para sorrir? O que predispõe alguém ao sorriso?
Perguntas para as quais não se encontram respostas fáceis. Mas não importa. Se hoje sorrio eu sei por que, e isso me basta.

4 comentários:

Zé Ricardo disse...

O sorriso na face do amigo é um presente divino. E pensar que o riso já foi motivo de perseguições! para se ter uma idéia basta lembrar do clássico O nome da Rosa de Umberto Eco, onde uma série de crimes ocorria em um mosteiro medieval, tendo como motivação o ocultamento de uma obra aristotélica sobre o riso.

Alice disse...

Adorei o texto. Tão simples e ao mesmo tempo, tão bem trabalhado. Esse era o meu objetivo... Todos trabalhando juntos e a cada hora, uma obra de arte surgindo. E sorrisos também - de todos os tipos.
Parabéns, João.

Mattoso disse...

O sorriso é uma porta aberta. Com ele podemos dizer que pode entrar, seja bem vindo. É quando o corpo entra em erupção, fazendo com que suas larvas deixe o solo mais fértil para ser plantado uma amizade, um pedido, uma aproximação, uma paixão...Que Bom João que sua porta está aberta.

Sentimental ♥ disse...

A Mattoso disse tudo.
O sorriso é a porta q abrimos pra tudo... Adoro abrir portas...
Beijos