25 de janeiro de 2008

A Alegria na Tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Martha Medeiros






















Esse texto chegou até mim hoje pela manhã.O que a Martha Medeiros diz nele não é novidade (ou é!). É muito do que temos conversado por onde passamos e como acredito que tudo na vida tem a sua Razão de ser, ele está aqui para nos lembrar que a tristeza tem seu lado positivo. Mas ela só nos faz bem se vier com a passagem de volta...

Zélia ;)

3 comentários:

Mattoso disse...

Simplesmente maravilhoso esse texto. "Sentir é um retiro, fazer é uma festa".(M.Medeiros)
Esse texto só fez complementar o que eu escrevi lá no jardim hoje pela manhã, e o comentário que fiz no texto Sinfonia de Alice. Complementou minhas idéias, meus conceitos. Me acrescentou muita coisa. E essa frase então, foi como um sintetizador de tudo que foi lido. Adorei Zélia. Bjs

João Neto disse...

"Triste é não sentir nada" (M. Medeiros)

Concordo com Mattoso (é até estranho chamá-la assim...). Texto perfeito cheio de boas provocações ao raciocínio. Concordo com a Martha. Triste mesmo é não sentir.

Alice disse...

Isso lembra que "Depois da tempestade vem a bonança". Ficar triste não é um estado permanente.