Vou contar um causo de polícia. Sei que na maioria das vezes vou contar causos aqui que envolvem mulheres e, já pensando nas milhares de queixas que posso receber, quero deixar claro que não é machismo, perseguição, inveja, ou qualquer outra coisa, é simplesmente, e isso é apenas uma tese, o fato de que as mulheres parecem possuir a tendência de se meterem em enrascadas mais facilmente. Talvez se explique o fato através da ainda presente imagem do inconsciente coletivo de que a mulher é o sexo frágil. Calma meninas, muita calma nesta hora! Se meu estilo sutil não convencer vocês, lembrem-se que sou um cara armado e perigoso e estressado e vivo sob pressão e posso estourar a qualquer minuto e não pisem no meu calo e encosta na parede, levanta os braços e num diz um pio, senão...
Bem, tendo apresentado as minhas desculpas, sigamos em frente.
Estava eu rodeado de inquéritos policiais, no aconchego do meu feudo, o cartório policial, quando entra o delegado com uma mulher de aproximadamente uns vinte e cinco anos, bonita, de cabelos loiros, corpo mignom, um olho aberto e verde, e outro olho inchado e roxo. O olho parecia mais uma luneta pós moderna colorizada por Andy Warhol num arroubo artístico de mau gosto. Ela sentou-se choramingando na minha frente, e claro, o delegado não precisaria explicar o óbvio. Tratava-se de mais um caso de violência doméstica.
Ela me observou com aquele olho que podia se mexer durante todo o processo de qualificação para a lavratura do procedimento, que naquela época, antes da Maria da Penha, era bem simples. Falava pouco, estava numa espécie de torpor causado pelo choque. Em breve eu conheceria o causador de tamanha covardia.
Aqui se faz necessário questionar, pacato cidadão, se você faz idéia do tipo padrão de homem que pratica tal violência? Não? Talvez pense você que o cara que normalmente bate em mulher é grande, forte, tatuado, usa uma barba em desalinho e pilota motos usando jaquetas dos Black Angels. Sinto desmistificar o estereótipo, mas na média é justamente o contrário. Embora tais homens, se assim podemos chamá-los, pareçam neandertais no comportamento, na aparência eles se parecem com você, ou seja, normal como qualquer um.
E então veja lá, eis que surge no cartório o grande brucutu moderno! Mais magro do que eu (e isso requer esforço hercúleo, pode acreditar), com aproximadamente 1,60m de altura, branco, meio calvo, com os dois olhos castanhos, o que me fez pensar se não seria uma boa também lhe presentear com um carimbo Andy Warhol. Ei cara! Veja só, com umas seis fotos unidas num painel e colorizadas por mim, você vai parecer a Marilyn! Talvez não a Monroe, mas com certeza o Manson!
E é aqui que a coisa começa a ficar torta...
Preciso dizer que antigamente, antes daquela Maria já citada, no caso de violência doméstica que resultasse em lesão corporal leve, o procedimento só seguia adiante mediante representação da vítima. Trocando em miúdos, a polícia e a justiça ficavam amarradas à vontade da pessoa que sofreu o prejuízo para poder tomar alguma atitude, caso contrário o agressor é liberado sem nem um registro negativo sequer.
O brucutu moderno nem percebeu que eu estava na sala, foi logo se aproximando da esposa e dizendo: “Meu amor, me perdoe!”. Dá para acreditar em tamanha cara de pau? Mas então os anjos viraram os rostos, as flores murcharam, os pássaros caíram mortos no chão e o sol se escondeu com vergonha quando a vítima fitou o agressor, com aquele par de olhos descompensados, e disse: “Porque você fez isso?”. Foi difícil custar a entender que, apesar de surrada, a vítima ainda entabulava uma conversa com o agressor. O amor não é lindo? Eu disse amor? E então deu-se início a um acordo de paz entre os dois, tendo a mim como expectador estupefato (e que, apesar do choque, servi-me de uma pipoca e um coca light curioso pelo fim daquilo).
O brucutu passou o braço por sobre os ombros da louca... ops... digo, vítima, e foi desfiando toda aquela ladainha de cafajeste no ouvido dela, que aos poucos foi se aproximando até apoiar a cabeça no ombro dele!!!! Comecei a me questionar se deveria sair da sala e deixar o clima rolar solto, mas lembrei-me que estava numa delegacia e devia manter o decoro do lugar (se bem que quebra de decoro é a base de qualquer receita de boa pizza). Mas antes que pudesse fazer algo eis que ocorre o inusitado! Um beijo!!!! Não, num foi só um selinho comemorativo das pazes. Nãããããããão! Eles tinham que comemorar com estilo. Foi um tremendo, com perdão da má palavra, beijo francês!!!
Fiquei eu ali diante daquele casal bizarro, e então me dei conta que eles não eram tão bizarros assim. Infelizmente eu já tinha ouvido falar de situações semelhantes, embora nunca as tivesse visto ao vivo e em cores “by Technicolor”. Nem preciso dizer que a vítima nem cogitou representar o brucutu, que saiu impune e abraçado à sua cintura.
Pacata cidadã, com perdão novamente do que vou dizer, mas se não é regra geral de que mulher gosta de apanhar, e eu acredito nisso, é verdade também que existe algumas que, se não gostam, não fazem questão...