10 de abril de 2008

Grãos de Areia

foto por Strange - deviantart.com


Teimo em catar grãos de areia
Apenas para vê-los escorrendo entre meus dedos
E pouco me importa, torno a catá-los novamente
Teimo em catar grãos de areia...
Já vi esse filme, tem gosto de ranço
Tem sabor de teimosia ingrata e de mau gosto
Há outro tipo de teimosia?
Gravito ao redor igual satélite cortejando o sol
Mil desculpas antes de dormir
E promessas tão fugazes quanto um orgasmo
Ouço vozes admoestando quanto ao juízo final
Abro uma cerveja
Gostaria de acender um cigarro
Dou de ombros, finjo seguir adiante
E já me disseram
Você se revela em suas poesias
Mas, ora bolas, de que me servem elas então?
Sondo minha alma, exponho no mercado
Grita o feirante e me asperge água
Gesticula oferecendo grãos de areia que me fogem dos dedos
E na minha boca morre o verbo que não quero conjugar
E não é apenas por teimosia
É medo e coisas que não sei contar

4 comentários:

Pan disse...

eita, que tinha gente inspirada nesse último oito de abril... :)

Alice disse...

Todo poeta é teimoso e todo poeta acredita. E você passou a acreditar. Palavras são saudações que recebemos e doamos quando o silêncio tenta reger o que é pretencioso e quer viver a todo custo. Grande poema, João. Grande e imerso em sentidos e significados. Leio seus poemas e penso em coisas perfeitas que guardamos - por medo ou insegurança. Você ganha o mundo com suas palavras e ganha também minha admiração. Já me vejo no futuro, lendo livro de poesia de João Neto e comentando com amigos que sou amiga do poeta também. E sua obra está no mercado - compro e faço questão de comentar tudo. Você não só cata grãos de areia, como também sabe fazer poesia em perfeição.

Sempre admiro o seu escrever e teimo em dizer...

Você nasceu poeta e viverá poeta. É honra e dádiva. É viver diagnosticando flores e estações do ano.

Bjs...

Letícia

Ella disse...

Eu já li este poema umas 10 vezes. Entro para ver o blog e leio novamente.
Acho que está entre os poemas mais tocantes que já li.
Lindo, lindo.
Bjs

João Neto disse...

Oi Ella, fico feliz de que tenha gostado tanto do poema. Thanks!