28 de fevereiro de 2008

Ahn?

(foto: caffe by rayman79 - deviantart.com)

– Ahn?
– Oh meu Deus... Oh meu Deus, você me traiu!!!!!
– Como assim? – Cuspindo fora um pedaço de pão de queijo – Que história é essa de que eu lhe traí?
– Como você pôde? – Olhos arregalados, o garfo suspenso no ar com um pedaço de pamonha com queijo, um princípio de beiço chorão nos lábios – Nunca pensei que seria enganada assim, principalmente por alguém como você.
– Deus do céu, mas que história mais maluca é essa? Como, de repente, você pode se virar para mim e dizer que eu estou lhe traindo? De onde você tirou isso?
– Aháá!!! Então você não me traiu, você está me traindo? É isso, não é?
– Nem traí e nem estou te traindo sua maluca!
– Mas você acabou de dizer que eu disse que você estava me traindo, quando na verdade eu disse que você tinha me traído, ou seja, você se traiu pela própria boca.
– Calma – Sorvendo um longo gole de refrigerante, olhos incrédulos mirando o movimento no shopping. Então era assim que as pessoas enlouqueciam, saía-se para um programa a dois num cafezinho e de repente vem o surto. Talvez ela fosse alérgica a algum ingrediente. Provavelmente à comida de milho, ou quem sabe ao queijo. Mas ele poderia resolver a questão sendo mais sensato que ela. – Em primeiro lugar me explique com calma o porquê de você achar que eu lhe traí.
– Agora não adianta mais, eu já sei que você está me t-r-a-i-n-d-o – Olhos semicerrados, soltou as palavras como um sibilo, segurava perigosamente uma faca. Tudo bem, tinha a ponta arredondada, mas era uma faca. – Mas mesmo assim eu lhe direi. Você disse “Ahnn?”.
– Ahnn???
– Isso mesmo.
– Isso o quê, ora bolas??
– Não se faça de inocente, você já me entendeu muito bem.
– Não, não entendi.
– É sempre assim, não é? Vocês homens são todos iguais. Fingem-se de burros quando o assunto não interessa. Mas se acha que você pode me fazer de idiota, perca as esperanças.
– Eu não quero te fazer de idiota – Sim, por que na concepção dele ela estava se esforçando muito para se tornar uma idiota sozinha, não precisaria da força dele. Mas, de toda forma, se ainda havia alguma esperança, ele tentaria contemporizar a situação, amaciar a fera e buscar um pouco de lucidez naquele papo maluco – O que é que o “Ahnn?” tem a ver com o fato de uma pessoa trair outra?
– Você pensa que eu sou burra? Você acha que eu não tenho cultura? É? Pensa que eu não percebo o desdém com o qual você me trata, só porque você passou no vestibular para um curso melhor do que o meu?
– Por favor, por favor – A voz como num sussurro, praticamente suplicando. Não acreditava que estava passando por aquilo. – vamos voltar ao assunto principal, não adianta agora ficar colocando suas neuras para fora.
– Está vendo? Fica me traindo e ainda me chama de neurótica! Eu não posso com isso, é muito duro para mim... – algumas pessoas ao redor começaram a prestar atenção à conversa – Pois vou lhe explicar, senhor cultura universal. Você disse “Anh?”, o que significa que você não escutou o que eu falei, o que leva logicamente a crer que você tem problemas de surdez.
– E?
– E eu li hoje no cabeleireiro, numa destas revistas femininas, que a surdez está diretamente ligada à traição. É isso. Você me traiu!!! – finalmente as lágrimas rolaram quentes pelo rosto, ela não podia aceitar o fato de que quando finalmente acreditava ter encontrado o homem da vida dela, ele a havia traído tão cruelmente. Mas ainda havia coisas importantes a descobrir. – Com quem foi? Foi com a sua ex? Com alguma amiga minha? Eu conheço? O que ela faz melhor do que eu?
– Fale baixo, você está gritando sem necessidade.
– Você me usou. Me seduziu com esse seu papo de intelectual, sempre muito educado, dizendo as coisas certas nas horas certas, e quando derrubou todas as minhas defesas usou meu corpo, minha mente, minhas mãos, minha boca. Eu me sinto suja, imunda, humilhada! E pensar que deixei que você fosse o primeiro...
– Fala baixo, está todo mundo olhando...
– ... A terminar na minha boca... – Som de vômito na mesa ao lado – ... a me possuir por trás... – Comentário na mesa mais a frente: “E ela me parecia ser de família” – ... a me ter por completo. Eu me abri toda para você, meu corpo foi seu, completamente seu. Isso sem contar nas minhas esperanças, nos sonhos, em tudo o que construímos juntos!
– Mas, mas... o namoro só tem três meses...
– E você acha isso pouco? Como assim só três meses? E se você já anda me traindo com tão pouco tempo, no calor da paixão, o que não fará comigo no futuro? Hein? Hein? Você não passa de um porco machista, um monte de hormônios descontrolados, um irresponsável – não agüentava mais, chorava copiosamente com os braços abertos. Numa das mãos o garfo com a fatia de pamonha de onde acabara de cair um pouco de queijo em cima de sua calça que o namorado mais gostava, na outra mão a faca perigosamente erguida, o que provocava calafrios no rapaz. Ela era louca, sem dúvida, e pessoas loucas são capazes de tudo.
– Meu bem – ele agora lutava pela sua integridade física – Não fique assim, acho que você está passando por um momento difícil. É a TPM, não é?
– Seu imbecil! – bradou, movimentando a mão com a faca. Silêncio completo no cafezinho. Alguém passava um chapéu coletando apostas. A maioria certa de que rolaria sangue. – É sempre assim na cabeça de vocês machos insensíveis, a mulher não pode desabafar suas angústias e sofrimentos e vocês vêm logo dizendo que estamos de TPM. Como eu pude ser tão cega? Como? Ninguém merece isso. – Baixou ambos os braços, estava exausta, curvou-se sobre a mesa e ficou perdida em seus pensamentos. Uma onda de alívio percorreu o pobre namorado, voltava a acreditar que ainda poderia ter filhos, mas certamente não com esta maluca. Alguém gritou, uma mulher obviamente: “Não deixa barato não, ele merece uma boa surra!”.
– Ahnn?? – disse ela.
– Como assim, Ahnn? – Ele quase não acreditava que tinha a chance de ouro nas mãos. Agora era sua vez. – Você está me traindo? Sua, sua, sua... – não poderia baixar muito o nível, queria ganhar a simpatia dos presentes – feminista de araque. – não era muito, mas dava-lhe um ar de superioridade. – toda essa cena e você está me traindo?
– Meu amor... – Surpresa, constrangimento. Pensou rápido. Uma máscara de perfídia cobriu seu rosto. Falava manhosa, cheia de dengos – Claro que não, meu anjo. Eu nunca que faria isso.
– Mas fez. – ele agora se divertia, não acreditava naquele papo sem sentido de que surdez tem a ver com traição, mas faria valer o seu teatro, e com certeza a faria chorar de arrependimento pedindo perdão. Os homens são hábeis nisso. – Todo esse blá-blá-blá para cima de mim e veja só. Como é, hein? Certamente depois que eu saio da sua casa, não é? Quem é? Já sei! – Abriu os braços como se tivesse descoberto a pólvora – É aquele marombado que trabalha com você. – apontava um dedo acusador. Ela baixou os olhos. – e você me enchendo o saco para que eu entrasse numa academia, agora eu percebo tudo! – por fora torcia o rosto num esgar mortificante, por dentro gargalhava freneticamente se divertindo pacas – E sei mais! – Ela agora chorava baixinho, enxugando as lágrimas com o guardanapo sujo. – Você se encontra com ele na hora do almoço também. É por isso que nunca quer que almocemos juntos. Você não passa de uma Maria Madalena hipócrita. – Sentenciou por fim.
– Mas eu te amo tanto... – uma dupla de executivos na mesa por trás deles nem piscavam os olhos.
– Ama? Como você pode me falar de amor? Lave sua boca antes de tocar num assunto tão sublime! Analise sua consciência deturpada antes de proferir mentiras vis! Para mim está tudo acabado entre nós. – alguém bateu palmas lá nas mesas que ficavam ao lado das escadarias rolantes. Ele se achou o máximo, que elegância, que vocabulário. Esse era o ponto em que ela choraria até não agüentar mais e certamente pediria perdão pela babaquice toda. Ele já acreditava que poderia lhe dar uma segunda chance, mas ficaria de olhos bem abertos para outro surto de loucura.
– Me perdoe! Me perdoe! – lágrimas grossas escorriam como um rio. Em breve o resto da pamonha estaria boiando no prato dela, e não seria no queijo derretido. – Foi mais forte do que eu, desde criança que eu o paquerava, e só agora foi que ele me deu uma chance. – falava tudo sem pensar, numa torrente incontrolável – Eu não sabia se nosso namoro ia dar certo, no começo eu achei que nós estávamos apenas ficando. Encontrei-me com ele apenas uma meia dúzia de vezes. Me arrependo tanto, me sinto suja, imunda, humilhada! Oh meu Deus! O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz? Destruí o romance perfeito. Me perdoe!
– Você está me traindo mesmo? – o mundo que cai. Castelo em ruínas. Gargalhada que cessa. Estupefação, para resumir tudo. Um silêncio mortal no cafezinho, poderia-se ouvir o microondas esquentando uma coxinha de galinha. – Você... você... está realmente me traindo?
– Você me perdoa amor? – manhosa novamente – Prometo que não vai mais acontecer...
– Mas... mas... o que foi que faltou? Onde errei? Quer dizer... puxa... eu nunca passei por isso...
– Posso trazer a conta, senhor? – Era um dos garçons. O dono já estava cheio daquela cena surreal, e o pior, ninguém mais pedia nem um expressinho que fosse. Tinha que dar um basta. Mandou o garçom lá, com ordens estritas de expulsar os dois na porrada, caso encontrasse resistência.

4 comentários:

João Neto disse...

Texto antigo. Longo também. Mas eu gosto dele. Espero que vocês tenham gostado também. E sim, a notícia que deu origem ao texto foi real, eu li numa revista feminina, em algum consultório médico... tão surreal quanto cartão corporativo.

Ella disse...

João,
O texto está ótimo! Ri muito.
Eu sempre achei que quem é muito ciumento, só é assim porque a D. Traição costuma bater à porta... rs
Bjs

Alice disse...

Traição causa surdez e revistas de consultório médico me deixam com a sensação de que "o tempo passou e só Carolina não viu". (Chico Buarque)

Adorei o conto, crônica, texto. Suas criações são sempre históricas.
Keep on the tracks. :)

Zélia Palmeira disse...

O mundo está cheio de Carolinas!!!
Enquanto isso,assistimos a cenas como estas...
kkkkkkkkkkkkkkkk