17 de fevereiro de 2008

Encaixes Soltos

(foto: deviantart.com)
Perdido e desengonçado entre sonhos e esperanças que temerariamente vão se concretizando. Deveria estar feliz, mas não consegue. Num arroubo de coragem, que ultimamente vem lhe faltando, lança-se na árdua tarefa de parecer o que não é. Consegue, mas não o tempo suficiente para esconder o que é óbvio. Já não é mais. Pronto. Nada mais há para fazer a não ser se juntar aos seus, em seu gueto. Não obstante lidar com crises de uma idade que já se foi e da idade que se aproxima, e talvez por isso chamem de meia-idade, há também que lidar com saudades diversas, tão difusas e dissonantes que chegam a não fazer sentido algum. Um cinema, sentado na mesma cadeira de sempre, uma loja visitada quando se queria presentear, um corredor onde compravam o sorvete, o banco em frente ao shopping de onde partiram para a primeira tarde em que se despiram e sentiram o quanto eram perfeitos e encaixados e belos um ao outro. Um vento sopra e traz novidades. Mas há o medo. E o medo é aquilo que nós criamos para nos proteger de nós mesmos. Para nos proteger daquilo que nos dá prazer, mas não conseguimos obter. E aí nos escondemos, fugimos e deitamos a sonhar, criando um mundo paralelo de alegrias e certezas absolutas. Nesse mundo não há solidão e nem saudades, tampouco há esperança, tudo já é, e não há o que querer mais. Nada mais parece estar encaixado, perfeito e belo como antes.

5 comentários:

Alice disse...

"Um mundo paralelo de alegrias e certezas absolutas."

(João Neto)

Li seu texto e encontrei muitas outras passagens que poderia citar aqui, mas essa me chamou a atenção pela busca do que nos é perfeito e completo. Mundos paralelos existem, não podemos negar e seu texto me levou a um deles. Fico feliz ao ver que, de alguma forma não-estranha, abri caminho para escritores talentosos e originais. Você, a Zélia, a Simoni (Quando aparece). Admiro esse processo - o nascer do escritor que cria à luz da realidade "verdadeira".

Ótimo texto, John. :)
Congrats.

João Neto disse...

Thanks!

E não apenas pelos comentários. Principalmente por haver encontrado a chave que abriu uma porta que julguei já estar definitivamente fechada. Você e Zélia criaram um monstro! KKKK! Ou melhor, ressuscitaram!

Ella disse...

Nada como um dia após o outro, novos encaixes e outras formações...
Bjs

Zélia Palmeira disse...

Às vezes,o nosso mundo parece perder o sentido.Aí,é natural que outros nundos surjam como efeito de proteção também.Mas eu vou morrer dizendo que isso passa.Basta querermos.Como um simples passe de mágica,sim!Outras vezes,não!O importante é procurarmos seguindo em direção ao que nos faz bem.Quando menos esperamos,plim!Tudo se fora...

Mattoso disse...

"Nada mais parece estar encaixado, perfeito e belo como antes." (João)
Depois que passamos a ver que o cinza é a soma do branco e do preto, toda a magia do cinza de ser cinza desaparece.