22 de fevereiro de 2008

Meu Primeiro Plantão




Meu primeiro plantão, eu lembro bem, foi numa quarta-feira chuvosa. A delegacia na qual trabalhava é uma das melhores da capital, em termos de estrutura. O prédio é conservado, e tem, entre outras coisas, uma boa sala de recepção, um cartório só para o escrivão (um luxo), banheiros, uma sala para arquivos, o gabinete do delegado e um dormitório com camas e tudo. Veja só, camas e tudo o mais!

Eu fui trabalhar com um pouco de receio dos policiais antigos, mas como nunca fui de tirar conclusões precipitadamente decidi que todos eram inocentes até que se provasse o contrário, e a primeira impressão (aquela que fica) foi a melhor possível, o que acabou por se concretizar com o passar dos meses.

A delegacia fica localizada bem no centro da cidade, numa rua que depois das 21:00h é praticamente deserta. Sendo assim, logo acreditei que teria pouco trabalho pela frente, e isto sim não se concretizou com o passar dos meses, aliás, foi tudo bem ao contrário. E o trabalho começou naquele dia mesmo, pois lá pelas tantas a Polícia Militar trouxe um casal que estava praticando desordens no centro da cidade. O camarada era um tipo alto e forte, de poucas palavras (também pudera, tava chapado até às últimas) mas a mulher...

Mulher quando é presa vira bicho! E esta não era diferente. Chorava, gritava, esperneava, xingava a todo mundo com termos que iam do “policial derrota” (com perdão da má palavra) até “seus polícia f.d.p”. Isso me deixou curioso. Não o comportamento da presa, mas sim a passividade com que os policiais militares tratavam a coisa, pois na minha cabeça quando um preso agia daquela maneira ia para a porrada sem pena, mas eles nada faziam a não ser rir. Ela, de algemas nas costas, ficou prostrada numa cadeira, chorando, xingando e se lamuriando sem parar, com o cabelo desengrenhado cobrindo o rosto e um fiapo de catarro escorrendo do nariz. Enquanto que seu parceiro de arruaças permanecia em um silêncio digno de impávido colosso. Tanto era silencioso que não respondia às perguntas do Tenente, e foi aí quando um Soldado deu um safanão nas costas dele para que acordasse. Nesse momento um dos nossos policiais, um Agente, tomou a frente da situação e conseguiu, com o jeitinho brasileiro, explicações do preso, sem ser necessário uso de violência nenhuma.

Em seguida os dois foram colocados nas celas da delegacia. A partir daqui o grandalhão pareceu acordar de verdade e passou a ameaçar, em alto e bom som, todo mundo de processo, dizendo que estava sendo vítima de uma injustiça, que era um homem de bem, pai de família e blá-blá-blá. A sua companheira estimulava-o a cada frase dizendo que era isso mesmo, que deveria processar todo mundo, que nenhum policial merecia piedade, e aí ela se deu conta e disse:

– Mas se tu for processá mermo, num processa a Civil não... eles foram teu amigo, num deixaro a PM te batê.
– É verdade, eles num deixaram a PM me batê mermo.
– Pois é, o civil foi teu amigo.
– É... mas, veja bem – disse o grandalhão em tom de filosofia, de quem parece estar conversando consigo mesmo – até Jesus Cristo foi traído pelo seu melhor amigo. Ele foi traído por Judas... Judas "Carioca".

E isso, caros leitores, foi só o princípio das dores...

2 comentários:

Zélia Palmeira disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Se Deus é brasileiro,quem duvida que Judas é carioca?! :O

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Alice disse...

Não seria esse lugar um hotel?! John, Gosto dos seus textos-relatos jornalísticos-crônicas. Passam exatamente a atmosfera, a sensação e a situação - coisas que tem gente que estuda para criar. Em teoria do Conto se vê isso, mas vc simplifica o tempo. Você escreve de verdade e não enche o texto de retórica. Fica tudo muito limpo e real. Sou fã dos seus relatos policiais. :)