8 de junho de 2008

Anjo, Assim Diz Ela

(Foto por Skaterboy - DeviantArt)


“Anjo...
amigo...
amor...
poeta...
e inspiração!”

A Ana Fernandes me mandou esses versos, pediu para completar. Completei. Espero que gostes, Mafalda.

Anjo
E se você diz assim
Então assim é
Outono se foi
Inverno deixado para trás
Primavera começa com flores
Verão vem
E, enquanto não chega
Criemos os nossos próprios dias de calor
Só um pouquinho... diz com languidez
Sussurra segredos
Escancara sorriso
Toma pela mão
Guia para si
Faz arte com o corpo
Enlaça e abraça forte
Pendura cartas de amor no varal
Faz poesia às escondidas como criança traquina
É festa com balões multicoloridos
É lua cheia que astronauta admira
Mar de águas claras em dia de sol
Linha reta em estrada torta
E ponto final em conto de amor

Anjo
Se você diz assim
Assim é
As asas são suas
Voemos alto sem medo de cair
Vamos perto do sol
Vamos longe no céu
Vamos fugir
Pousar em ilha desejada
Ver golfinho dançar para você
Mergulhar e fazer colar de corais
Sermos juntos
Ser eu, ser você, sermos nós

4 de junho de 2008

Portas

(Foto por Zechic - DeviantArt)


Portas...
Muitas portas
Muitas entradas
Poucas saídas
Porta que leva
Porta que trás
Vassoura atrás da porta
Teia de aranha também
Porta larga
Porta estreita
Porta da percepção
Salve Jim
Porta do Hades
Cérbero bonzinho, Cérbero bonzinho
Porta do Céu
Pedro e o molho de chaves
Porta-lápis
Porta-moedas
Portaria
Porta tudo quanto quiser
E assim leva-se a vida
Atravessando-se portas
Fechando-as atrás de si
Coragem? Ousadia? Loucura?
Deixando-as abertas
Temor? Segurança? Loucura?
Portas...
Importa vivê-las
Portanto, por tudo, por nada
Seja esperta
Encontre a chave mestra


Passeando pelo blog Esse Papo Também, vi um post que me inspirou a descrever estas portas. Thanks for the inspiration Camilla. Esse é para você.

3 de junho de 2008

No Espelho do Guarda-Roupa

(Foto por Helewidis - DeviantArt)


Cantor de bossa-nova desajeitado
Dedo longo, prosa pequena
Talento escondido no baú
Tradução de emoções para si mesmo
E veio o dia, que de belo só o nome tinha
O mundo bateu-lhe à porta e na face
E vieram as lágrimas
A despeito do sorriso bobo no rosto
Passou a aurora
Chegou o sol a pino
Adentrou a noite e
No último suspiro, dormiu
O sonho carregou o que de resto sobrava
E teve vento, teve chuva, teve de tudo um pouco
Fazia frio nos trópicos, nevou dentro do quarto
Cortejou ciclone, tempestade e precipício
Ouviu o convite da morte e disse não
Fez trança no cabelo
Tatuou dragão no braço
Acendeu cigarro perfumado
Lançou injúria no vazio
Rabiscou encantos na porta do banheiro
Saltou de braços abertos para a vida
Lasciva, ela lhe beijou o rosto
Fez promessa e lhe entregou o corpo
Descobriu seus segredos
Sentiu cheiro e sabor de sexo casual
Explodiu em nuvens carregadas
Caiu em gotas bem vindas
Cantarolou canções preferidas
E soube, por fim
Não havia respostas
Por que não havia perguntas
Estas eram desnecessárias
Por que tudo estava lá
Abriu os olhos e viu
Tomou o violão
E fez poesia

26 de maio de 2008

Escrevendo o Silêncio

(foto por Blue Rose - DeviantArt)


Escrevo não apenas por que gosto, mas, antes de tudo, por que preciso. Aprecio a palavra desde cedo, tanto a escrita quanto a falada, mas devo admitir que prefiro aquela a esta. Já me rogaram pragas dizendo que sofrerei um infarto antes dos quarenta (peço a Deus para que não seja fulminante, não está nos planos morrer tão jovem) justamente por não conseguir expressar o que sinto em sonoras frases de pé de ouvido. Quem convive comigo se ressente do meu calar e do prazer quase orgástico que sinto em ambientes silenciosos. Encaro com um interesse peculiar a um cientista a incapacidade das pessoas que não conseguem se manter em silêncio. Elas precisam falar sobre tudo. Sobre o dia, sobre a noite, sobre a chuva que cai, o sol que esquenta a pele, o penteado novo da vizinha, os ditames da economia, a pobreza global, o ônibus que nunca chega, a nova moda, a campanha política, o amor que terminou e o novo amor que chegou, e assim sucessivamente um assunto atrás do outro em desabalado matraquear. E isso não é uma crítica, é apenas o registro de um fato comum, às vezes meio irritante, mas comum, e, porque não dizer, é também um pouco de inveja... Li em algum lugar que a média de palavras ditas em um dia beira as dezesseis mil. Acho, não, tenho certeza de que sou capaz de passar um dia inteiro sem dizer ao menos uma palavra sequer, mas tenho cá minhas dúvidas se serei capaz de passar tanto tempo assim sem nem ao menos pensar em escrever umas linhas aqui e outras acolá. Como dito, ou melhor, escrito anteriormente, uso do papel por conta da minha incapacidade de usar a fala. Por isso escrevo. Para revelar o que sinto, para expiar meus pecados, para criar meu mundo particular, expor meu mundo particular, realizar novas descobertas, avançar no tempo, descrever a chuva que cai, contar estórias do amor que foi e que virá um dia, saber que o mundo é bão, levantar castelos, e, é claro, para escapar do infarto fora de tempo (e qual seria o tempo certo para um negócio desses?). Escrever, então, seja isso, a maneira perfeita de ser o que se sonha ser e de revelar, para quem sabe ler, o que se é de verdade.

21 de maio de 2008

Sobretudo Agora

(foto por Ssilence - DeviantArt)


Sobretudo agora
Após tantas e tantas palavras soltas
Somando subtrações e reviravoltas
Lançando dados em tabuleiro alheio
Semeando sopro na esperança de colher um vento sequer
Sobretudo agora
Depois de decisões tomadas
Após fases agudas e remissões
Perdoando e pedindo perdão
Olhos postos em prêmio que não se pode ganhar
Sobretudo agora
Após refletir o impensável
Compreender o irrefutável
Confundir o oráculo
Nomear o que já foi batizado
Renascer das cinzas
Ponderar no verso e na prosa
Sequer jogar moeda no poço
Trocar o trigo pelo joio
Perder o fôlego
Sobretudo agora
O cansaço trouxe a paz
A paz trouxe o entender
O entender trouxe a ação
A ação fez acontecer
E acontecendo, o mundo deu mais uma volta